Não demorou muito para os olhos deles se abrirem e verem que ele estava nu. Como seria difícil dar uma de Adão e Eva e esconder o Cristo Libertador, uma estátua de 4 metros de altura, parte dos moradores de Colorado (83 quilômetros de Maringá), envergonhada por sua nudez, achou melhor tirá-lo da igreja matriz e doá-la para a Universidade Estadual de Londrina (UEL). Depois de 26 anos de exílio na UEL, um movimento quer a redenção da obra de um dos maiores artistas do Paraná, Henrique Aragão, devolvendo-a ao município.
Ao contrário do que aconteceu em 1975, na introdução da estátua na igreja Nossa Senhora Auxiliadora, quando até uma equipe de reportagem da Rede Globo se deslocou do Rio de Janeiro para acompanhar a grande peregrinação de curiosos querendo ver a obra, caso volte à cidade, o Cristo pelado corre o risco de não ser recebido com mantos e palmas.
A estátua alvo de tanta polêmica, o Cristo nu, é feita em latão, tem 4 metros, um sol ao redor da cabeça e um pássaro de 2 metros de envergadura cobrindo o órgão genital.
Ao contrário de alguns moradores mais antigos, que até hoje ficam constrangidos com essa história, a vereadora Elizair Gil Braz Consalter de Melo, que era criança na época em que a estátua foi encomendada pelo bispo de Apucarana, dom Romeu Alberti, acha que ele deve voltar para a cidade.
''Desde a minha infância, eu achava a estátua linda. Porém, algumas pessoas achavam chato ter um Cristo pelado. Talvez por um certo pudor, houve muita polêmica e algumas pessoas mais idosas não gostavam porque as crianças iam embaixo da estátua para ver o que tinha lá. Fiz um pedido à UEL para a devolução da obra, e a mesma solicitação também foi feita oficilmente pela Prefeitura de Colorado. Aguardamos uma resposta da universidade londrinense'', afirma Elizair, acrescentando que o Cristo deverá ser instalado na Casa de Cultura, prédio que deve ser inaugurado em breve na cidade.
O pedido feito pela prefeitura de Colorado está sendo analisado pela universidade. O reitor Wilmar Marçal adianta que, pessoalmente, quer que a obra permaneça no acervo da instuituição londrinense.
Autor da estátua, Henrique Aragão, que mora em Ibiporã, não tem dúvida de que o Cristo pelado deve voltar para Colorado e se comprometeu em restaurar a estátua sem cobrar, como já fez anteriormente para a UEL.
''Acho que os moradores de Colorado têm todo direito de querer a obra de volta, já que foi feita para a cidade. Se o Cristo for devolvido, eu vou até Colorado para orientar uma restauração e não cobrarei absolutamente nada'', afirma Aragão.
O atual pároco da matriz, José Luís Monteiro, prefere não entrar na discussão, destacando, no entanto, a importância da arte sacra. Para ele as imagens são sinais, como fotografias de pessoas que venceram e se tornaram modelos.
''Cheguei a fazer um propósito de ir a Londrina para ver a estátua mas não consegui. Na minha opinião, cada coisa tem o seu lugar, o seu espaço próprio. Por exemplo, andar de biquíni não tem problema se você está na praia'', comenta o padre.
Enquanto não chegar o dia da sua redenção, a estátua, que sofreu com o período de exposição ao tempo, permanece guardada em um depósito provisório da UEL.

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