Em Londrina, não fizeram nenhum filme sobre os bairros mais carentes da cidade, mas alguns programas da tevê local conseguem causar o mesmo tipo de polêmica, ao descrever cotidianamente, em seus detalhes mais escabrosos, os crimes cometidos por gente que mora lá. Em função dessa constante e sensacionalista projeção na mídia, da qual também não se eximem os jornais diários, o público acaba fazendo uma vinculação imediata entre violência e bairro, intensificando o preconceito em todos os níveis. Nesse caso - pode-se dizer que no sentido anti-democrático -, a maioria sofre e paga pela minoria.
''No União da Vitória, onde moro há 13 anos, vivem cerca de 15 mil pessoas e apenas 1% dessa população está envolvida, direta ou indiretamente, com o crime'', contabiliza Anderson Sales, 21 anos, coordenador do grupo de rap ''Irmãos do Gueto'' e do projeto comunitário ''Infância e Juventude Saudável'', que trata da prevenção de DST Aids no União da Vitória. Apesar disso, sofrer preconceito é um padecimento compartilhado por todos. Só por causa do endereço, lembra Anderson, fica difícil conseguir um emprego, pedir uma pizza ou até mesmo convencer o motorista do moto-táxi a levar o morador até a porta de sua casa. ''Não sei o que acontece'', ironiza, '' mas os táxis sempre sofrem algum problema - ficam sem gasolina, quebram ou tem alguma pane - um pouco antes de chegar no bairro''. É preciso, portanto, encontrar um jeito - sinuoso, com certeza - de se integrar à sociedade. ''Um deles'', conta Anderson, ''é dizer pro patrão que se mora em outro bairro'' e viver preocupado em não desmentir a informação.
Márcio Luiz Feliciano, 24 anos, mais conhecido por ''Psico'', ''porque é preciso muita psicologia para dar conta do recado'', também participa do grupo ''Irmãos do Gueto'' e é gerente de uma loja de artigos relacionados à cultura Hip Hop, numa galeria da cidade. Assistiu o filme ''Cidade de Deus'' e entende as razões para tanta polêmica em torno do assunto. ''Como em uma música de rap'', comenta, ''ninguém vê o lado bom, de resgate social, que as letras trazem''. Essa confusão ocorre, explica Márcio, porque o rap ''retrata o que está acontecendo na periferia, com o objetivo de tentar modificar a situação, mostrar um outro caminho''. O agravante, contudo, é que, segundo Anderson, a própria comunidade colabora para que a imagem negativa prevaleça: ''Ao se omitir ou recuar, por medo de represálias, a população da comunidade deixa de fazer muita coisa boa e acaba dando espaço para o ladrão''.
Márcio e Anderson, assim como o rapper MV Bill, acreditam que polêmicas desse tipo são benéficas, pois colocam os holofotes sobre as necessidades de cada comunidade, incentivando a colaboração. ''De 6 anos para cá'', informa Anderson, ''o União da Vitória conseguiu, entre outras conquistas, implantar um Posto de Saúde, o maior do Paraná, 4 escolas, 3 creches e 5 quadras de esporte''. Isso não é pouco, mas está longe do ideal. No entanto, não há espaço para ilusões. ''Ninguém é bonzinho'', conclui, ''tudo o que conseguirmos vai ser sempre resultado da luta da comunidade''.

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