Está lá, na implacável crônica da época: o primeiro filme dramático realizado nas vizinhanças de Los Angeles foi ‘‘O Conde de Monte Cristo’’, de Francis Boggs, numa época (1908) em que Hollywood ainda nem existia como distrito cinematográfico da cidade, o que ocorreria somente dois anos mais tarde. De lá para cá, ocorreriam cerca de 20 versões da clássica narrativa homônima de Alexandre Dumas (incluindo uma bizarra ‘‘condessa’’ vivida em 1948 por Sonja Henie). Algumas menos, outras mais memoráveis. Mas nenhuma absolutamente infiel à fonte ilustre. O que, aliás, seria atestado de irrecuperável inépcia. Embora Dumas não soubesse que o cinema seria inventado em 1895, meio século depois da publicação de seu livro, ‘‘O Conde de Monte Cristo’’ (veja a programação de cinema nesta página) é uma dessas caudalosas aventuras que já nasceram pré-roteirizadas. Como ‘‘Os Três Mosqueteiros’’, também fruto da pena fértil do escritor.
Na França próxima do fim da era de Napoleão, o jovem, elegante, ingênuo, trabalhador e honesto marinheiro Edmond Dantes (o requisitado Jim Caviezel, também nas salas vizinhas em todo o Brasil com ‘‘Crimes em Primeiro Grau’’) é um inocente absoluto, aquela pessoa sobre quem se diz que ‘‘só Deus sabe como vai sobreviver neste mundo’’, ou algo semelhante. Mas um dia sua vida honrada e pacífica, que inclui o casamento com a bela e apaixonada Mercedes (Dagmara Dominczyk, um rosto a considerar apenas do nome – mas afinal, uma Gwyneth Paltrow já não levou um Oscar?), é repentinamente destroçada pelo melhor amigo, o rico, ciumento e mesquinho Fernand Mondego (Guy Pearce, que talvez se saísse melhor no papel do sofrido herói). Cheio de boa-fé, Dantes é perversamente envolvido numa intriga política e, apesar de proclamar inocência, termina preso na lúgubre ilha-prisão Chateau D’If, no Mediterrâneo.
Literalmente jogado num cárcere escuro e imundo, o herói sobrevive primeiro graças a um permanente, imperioso desejo de vingança. E também porque, vindo por um túnel da cela ao lado, chega até ele outro preso, o seu anjo da guarda, aliás o Abade Faria (um excelente Richard Harris), um homem muito rico que ganhou as masmorras porque se recusou a dar a fortuna a Napoleão. Ele agora tem outros planos: não mais fugir, mas preparar Dantes para a fuga e a vingança. O abade forja um novo Edmond. Ensina a ele todas as artes, desde a sobrevivência até a sofisticação, sempre em clima cool – afinal, em toda aventura que se preze a doce vingança é prato que se serve frio.
Treze anos mais tarde, Dantes está pronto. E pela última vez graças ao engenhoso abade, ele deixa a prisão, agora um refinado milionário, com nova identidade e um objetivo bem determinado.
A narrativa é satisfatoriamente orquestrada pelo diretor Kevin Reynolds (‘‘A Besta da Guerra’’, o melhor filme, e ‘‘Robin Hood, Principe dos Ladrões’’, o maior sucesso), um expert em aventuras. Mesmo deixando em segundo plano a idéia dramática por excelência – nobreza natural de caráter versus artificialidade da genuína aristocracia de berço –, Reynolds leva tudo a porto seguro com sobriedade, sem condescender com o grande público e sem desrespeitar a inteligência do leitor de Alexandre Dumas. É bom, portanto, usufuir este resultado, porque não é todo dia que Hollywood consegue equilibrar melodrama e aventura, acondicionadas em pacote que inclui ainda, entre cuidados gerais, um elenco correto e uma fotografia exuberante.

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