Montagem de "O Zelador" estréia em SP9/Mar, 15:03 Por Beth Néspoli São Paulo, 09 (AE) - Há 30 anos estreou no Arts Theatre de Londres, sob direção de Donald McWhinnie, a peça "O Zelador", o primeiro grande sucesso na carreira do dramaturgo inglês Harold Pinter. Aos 69 anos, Pinter - também ator, autor de roteiros para cinema e peças radiofônicas -, autor de "A Volta ao Lar" e "O Amante", é um escritor consagrado internacionalmente. No ano passado, uma montagem de "O Zelador" estreou no Rio, dirigida pelo jovem diretor Michel Bercovicht em sua primeira experiência no circuito profissional. No elenco, os atores Selton Mello, Leonardo Medeiros e Marcos Oliveira. A aceitação de público e crítica esticou a temporada da peça para além dos dois meses inicialmente previstos. Amanhã (20), às 21 horas, essa bem-sucedida montagem carioca de "O Zelador" estréia na sala B do Teatro Alfa, em São Paulo. Bercovicht inspirou-se na linguagem de quadrinistas como Will Eisner e Frank Miller em sua concepção cênica da peça, que tem três personagens encerrados num quarto. "Desde os figurinos até as marcações de cena, procuramos referências na linguagem dos quadrinhos e do cinema", diz o diretor. "No Rio, a gente brincava dizendo que o público ria até de pingo no balde", afirmou Bercovicht, fazendo referência às pequenas coreografias criadas a partir de situações como uma goteira amparada por um balde. O humor surge da marcação quase coreografada de cenas originais do texto, como a briga entre dois personagens por uma bolsa, mas o diretor garante ter mantido fidelidade ao autor. "A peça tem um clima de ameaça constante, fala sobre a solidão, a violência nas relações humanas e tudo isso está no palco", afirma. "Mas o humor - ainda que cáustico - é o instrumento ideal para abrir caminho até à emoção do espectador". Quando a peça tem início, o personagem Aston (Leonardo Medeiros) traz para dentro de sua casa o velho mendigo Davies (Marcos Oliveira). "Aston é um sujeito esquisito, solitário, caladão, que tem a estranha mania de trazer objetos velhos e quebrados para dentro de casa com o objetivo de consertá-los", diz Bercovicht. "Mick (Selton Mello), o irmão que divide o quarto com ele, vive reclamando dessa mania de trazer lixo para dentro de casa". Mick, ao contrário de Aston, é um homem violento e autoritário, que não oferece uma recepção exatamente acolhedora ao velho. A peça gira em torno da relação entre os três, com o velho oscilando entre a violência de Mick e a estranha gentileza de Aston, sempre em busca da melhor forma de garantir a permanência no novo abrigo. A palavra lixo não só aparece várias vezes no texto como é o principal elemento da cenografia criada por Eduardo Felipe, que também assina os figurinos. "Davies é um velho contaminado pelo lixo cultural, cheio de preconceitos e medos, mas vai dar mais trabalho do que os outros objetos", observa o diretor. Surpresa - A idéia da montagem partiu de Selton Mello, responsável pela produção do espetáculo e também pelo convite a Bercovicht. "É fascinante a forma como Pinter constrói o texto sem jamais entregar nada de bandeja para o espectador", diz Mello. "Não existe uma historinha linear, a gente pouco sabe sobre os personagens, tudo é meio obscuro e a todo momento eles surpreendem o espectador com um comportamento inesperado", afirma o ator. Mello e Bercovicht conheceram-se há dez anos, quando ambos integravam o elenco de "Romeu e Julieta" na montagem do diretor Carlos Wilson, o Damião. Ao correr o risco de convidar um jovem diretor para encenar um texto considerado difícil, Mello não estava dando um salto totalmente no escuro. Bercovicht começou a fazer teatro como ator, aos 15 anos, num grupo teatral dirigido por Miguel Falabella. "Hoje nossos caminhos são diferentes, mas tenho uma grande admiração por Falabella", diz Bercovicht. "Ele tem um incrível pique de trabalho e com ele aprendi a paixão pelo teatro". O segundo mestre foi o diretor Damião, responsável por montagens teatrais de grande sucesso como Capitães de Areia e O Ateneu, que tiveram como maior mérito atrair um público jovem até então distante do teatro. Em 1990, Bercovicht partiu para Israel, onde estudou dramaturgia na Universidade de Tel-Aviv, apresentando um trabalho final baseado na obra de Pinter. Serviço - "O Zelador". Comédia. De Harold Pinter. Direção de Michel Bercovicht. Duração: 90 minutos. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 25,00 e R$ 30,00 (sábado). Teatro Alfa - Sala B. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. Até 30/4

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