São Paulo, 09 (AE) - Mais do que merecidos bravos para a montagem de "Don Giovanni" em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo: bons cantores (boa parte produto nacional, é preciso ressaltar) e boa orquestra, uma direção cênica inspirada e instigante, cenários inteligentes e funcionais, uma iluminação com grande sabedoria dramática. Viva la libertá. Após um bom tempo com uma dieta insípida de produções custosas e bobocas, temos, enfim, uma ópera de verdade. O sedutor, no inferno, deve estar gargalhando, pois, bem-tratado, não perdeu em nada o seu poder de conquista sobre nós.
Num cenário claustrofóbico (e uma caixa de ressonância simpática aos intérpretes), os cantores movimentam-se entre quatro paredes (sartrianas?), sem nenhuma pretensão de realismo, em que o absurdo da ópera ganha lógica própria. Aidan Lang parece ter espremido o sumo da ação, deixando apenas a essência de cada situação, em vez do anedótico. É delicioso como os personagens se escondem dos outros apenas dando um passo para o lado ou se espremem entre os vãos do cenário, numa maravilhosa interação com os objetos. Sem o histrionismo esperado, o tom do drama (o mais privilegiado em detrimento da comédia) é dado pela interpretação dos cantores e pela luz, sempre em transformação.
Sem a representação forçada, há espaço para a leitura da ópera. O "Giovanni" de Lang traz consigo o inferno, o pecado, a sedução, coloridas, é claro, de vermelho. Ao seu lado, os nobres Otavio e Anna são opacos, escuros, enquanto Zerlina e Masetto (com que carinho tratou o casal de camponeses) carregam sempre as luzes. Não deixa de ser uma alegoria política, embora esse não seja o tom geral da montagem (a não ser na cena do baile, em que todos cantam o "viva la libertá" com punhos em riste). É um belo paralelo com as luzes e sombras da Flauta Mágica iluminista.
O cenário, como o mundo de "Don Giovanni", vai apodrecendo aos poucos e, ao fim, o sedutor, descabelado e imundo, volta de onde veio, o inferno, separado de nós por uma pequena armação de madeira, um aviso de que tudo pode recomeçar em breve. Esqueça todas as montagens que você já viu, pois essa é surpresa certa, ainda que sutil. E que só funciona com os cantores certos. Como Zbiegnew Macias, um Giovanni de voz densa que lembra Raimondi no filme de Losey (uma boa referência para essa produção, extraído o excesso de política). Laura de Souza é uma Donna Anna justamente indignada e tem um bom contraponto na Elvira de Luciana Bueno, algo áspera e nem sempre pronta a enfrentar os agudos enfurecidos de Mozart.
Fernando Portari é um grande Ottavio, inauditamente viril, digno de enfrentar o público só em cena, maravilhoso em Dalla sua Pacce. Rosana Lamosa é uma Zerlina de voz bonita, fraseado perfeito, mas algo dramática demais, coquete de menos. O sucesso maior é de Sandro Christopher, um Leporello dos sonhos de qualquer maestro e diretor: grande ator e ainda melhor cantor. Um prodígio in veritá. A Orquestra Experimental de Repertório está à altura de todas essas virtudes, já recuperada dos baques recentes, quando perdeu um bocado de seus músicos para outros grupos. Prova do talento infalível de Jamil Maluf. Bonita inversão: os jovens ensinando aos profissionais do Municipal como se cria um belo espetáculo. Basta deixar claro que se gosta do que se faz. (C.H.)

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