Esse negócio de endeusamento de artista, como se este vivesse em um Olimpo acima do chão, não passa de uma estratégia ideológica para desvalorizar o trabalho árduo de pessoas que fazem da poética seu modo de sobrevivência. Aliás, se ocupar da subjetividade é muito objetivo.
Há pessoas que acham que ganhar dinheiro com arte é proibido. Não entendem que é possível ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, tirar prazer daquilo que se faz sem se prostituir.
Baseada no servilismo e no sacrifício, nossa sociedade acabou se tornando materialista demais e com alguém sempre pronto para usufruir o que é do outro, como se tempo e trabalho alheio valessem menos que a esperteza usurária. A letra da música ‘‘Covarde’’ do cantor e compositor Edvaldo Santana, define bem esta situação: ’’...(o covarde diz) que o artista tem sexo de anjo e por isso está perto de Deus, (o covarde) copia o poema do louco e ainda diz para a mídia que é seu’’.
Ninguém é anjo ou inocente nessa história, como se os bons estivessem do lado da arte e os maus quisessem destruí-la. Uma coisa é reflexo da outra. E outra, os artistas também aprontam das suas. Muitos se fazem de intelectuais, excêntricos, lobbystas, incapazes mentais ou até mesmo, fazem o tipo artista. Querem estetizar o estético. Vaidade é outro problema que o meio artístico enfrenta, quando ela predomina, a arte vai para o espaço e sobram egos inflados. Os ‘‘monstros sagrados’’, às vezes, são pessoas geniosas, insuportáveis de se conviverem.
Os chamados gênios da raça fazem coisas erradas tanto quanto qualquer pessoa comum e não estão livres de carregarem a pecha - sempre quando se fala neles - não só de seus defeitos de caráter (e isso talvez seja o de menos), mas de um ou outro de seus trabalhos que resultaram em fracasso ou desastre.
Cildo Meirelles, um dos principais artistas do país, pioneiro em fazer instalações, participante dos maiores eventos de arte no mundo e atualmente com uma retrospectiva que já passou pelo New Museum, em Nova York, pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, e que irá para o MAM do Rio de Janeiro, até hoje se arrepende da obra ‘‘Tiradentes: Tótem-Monumento ao Preso Político’’, em que amarrou 10 galinhas numa estaca de madeira e ateou fogo nas bichinhas, para protestar contra o momento político em que se vivia na época, 1970.
Como Consciência Ecológica é assunto urgente, mas só agora nos damos conta de sua importância, outro artista, o búlgaro francês Christo - cuja intenção de seus trabalhos não é a denúncia, mas a intervenção no meio-ambiente para que a realidade seja percebida dentro do cotidiano anestesiado imposto pelo tempo em que vivemos - empacotou entre outros lugares, o contorno marítimo de várias ilhas, em Biscayne Bay, Miami, na Flórida, entre 1980 e 1983, com 603.850 m2 de tecido de propileno rosa. Uma maravilha que matou várias espécimes da flora e da fauna que dependiam direta ou indiretamente daquele espaço livre de qualquer intervenção. Um absurdo de sensibilidade!
Melhor não dizer besteiras! Nesses tempos ruidosos em que todo mundo acha que para aparecer é preciso gritar, preservar o silêncio também é questão ecológica.
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