Monstros exigentes
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de janeiro de 2010
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
O livro, o preferido do presidente norte-americano Barack Obama, vendeu mais de 18 milhões de exemplares nos Estados Unidos e é um clássico mundial da literatura infanto-juvenil. Seu autor foi premiado diversas vezes pelo traço fantástico e inconfundível. No entanto, ''Onde Vivem os Monstros'' (''Where wild things are''), de Maurice Sendak, publicado em 1963, só chegou ao Brasil em outubro passado.
'''Onde Vivem os Monstros'' é um livro muito concorrido com relação ao licenciamento, no mundo inteiro'', diz Isabel Lopes Coelho, editora do setor infanto-juvenil da Cosac Naify, que negociou a obra com a agente de Sendak em processo que durou três anos. De acordo com Isabel, a dificuldade em trazer a publicação para o Brasil vem do alto grau de exigência do autor, que resistiu a outras tentativas de licenciamento por aqui.
''Maurice Sendak é um autor que preza pelo trabalho editorial. Ele exige que o livro seja impresso em um papel específico (o Rolland Opaque), que a lombada tenha tecido e que haja sobrecapa. Além disso, as provas de máquina devem ser submetidas a aprovação antes de liberar o arquivo para impressão. São muitas exigências para o editor'', explica Isabel.
Apesar de ter demorado tanto, a publicação nacional de ''Onde vivem os monstros'' chega em momento propício, já que a obra ganhou adaptação pelo olhar diferenciado de Spike Jonze - consagrado diretor de videoclipes e longas, como ''Sabotage'', dos Beastie Boys, e ''Quero Ser John Malcovich''. ''Acredito que Maurice Sendak se sentiu seguro com a interpretação que Spike Jonze fez do livro. A obra traz questões relativas ao sentimento e comportamento que não são apenas infantis. Jonze tratou o livro como uma obra literária, e não como um 'livro para criança''', comenta Isabel. É bom lembrar que no passado até a Disney já tentou, sem êxito, o licenciamento do livro para uma adaptação.
''Onde Vivem os Monstros'' começa com um momento de destempero do jovem Max, que, depois de aprontar uma das típicas diabruras de um pré-adolescente, é mandado de castigo para o quarto, sem jantar. Fantasiado de lobo, o garoto transforma seu cubículo em uma ilha, cheia de estranhas e carismáticas criaturas.
A história, mesmo com um número muito pequeno de palavras - são menos de 350 -, traz mensagens poderosas em suas várias camadas de interpretação. A leitura mais simples abrange um largo espectro de emoções primordiais, que faz com que adultos e crianças reconheçam algum traço de si mesmos em qualquer fragmento da narrativa. Como o próprio diretor da adaptação também lembrou, ''Onde os Monstros Vivem'' é assombroso e intrigante, de uma forma que atiça a curiosidade dos leitores de 9 a 12 anos mas pode assustar os menorzinhos de até 5 anos.
Além do texto, Maurice Sendak tem extremo controle sobre hachuras em desenhos influenciados por artistas como Goya e Picasso e pelas xilogravuras do século XIX. '''Onde Vivem os Monstros'' foi o primeiro livro que trouxe para a literatura infantil o olhar da criança. O livro dá conta de um processo muito comum na infância que é o de se refugiar no próprio sonho para poder viver os seus sentimentos e lidar com eles. Além disso, trata-se de um 'picture book' moderno, ou seja, a ilustração corre em paralelo, contando também uma história. Repare como, ao passo que Max se aproxima dos monstros, até virar rei, as ilustrações vão crescendo até sumir com todo o texto. Isso é um recurso incrível'', destaca Isabel.
Com a popularidade do filme, espera-se que haja uma curiosidade natural sobre outros trabalhos de Sendak, já que ''Onde Vivem os Monstros'' faz parte de uma trilogia, composta por ''De Noite na Cozinha'' (''In the Night Kitchen'', de 1970) e ''Lá Fora Logo Ali'' (''Outside Over There'', de 1981), que devem chegar no Brasil em um tempo bem mais curto.
Serviço
- Onde vivem os monstros, publicado pela editora Cosac Naify, tem 25,3 cm x 22,7 cm, com 40 páginas coloridas e capa dura com sobrecapa e lombada em tecido. A edição nacional, traduzida por Heloisa Jahn, custa R$ 49.


