Monstros do Brasil
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Editora Edusp publica Zoologia Fantástica do Brasil, estudo de Afonso Taunay sobre os animais que povoaram o imaginário dos colonizadores dos séculos 16 e 17
A invenção de seres fantásticos não é uma prática exercida apenas por ficcionistas. O fantástico pode nascer na mente e nos olhos de qualquer indivíduo e, dependendo da intensidade imaginativa, a imagem criada pode ser confundida com realidade.
A zoologia fantástica é um gênero que encontrou fértil território no imaginário europeu após o descobrimento do continente americano. No Brasil, pintado como paraíso tropical, os seres fantásticos andavam pelas matas, nadavam pelo rios e voavam pelo azul na presença de qualquer pessoa.
A Editora Edusp, em parceria com o Museu Paulista, publicou recentemente uma coletânea de histórias sobre seres imaginários da fauna brasileira baseado na literatura dos viajantes europeus. Escrita por Afonso de Escragnolle Taunay, a obra permaneceu mais de 70 anos fora das livrarias. O volume compreende dois grupos de textos, um publicado originalmente em 1934 e outro em 1937, que ganham reedição somente agora com apresentação de Odilon Nogueira de Matos.
Embora Afonso de Escragnolle Taunay (1876-1958) seja um escritor conhecido apenas no meio acadêmico, deixou uma extensa produção. Publicou 75 obras, muitas em vários volumes, somando ao todo mais de cem volumes. Isso sem contar os textos semanais em jornais e a reedição comentada de obras do período colonial brasileiro. Também foi o responsável pela reedição das obras completas de seu pai, o Visconde de Taunay, ou Alfredo de Escragnolle Taunay (1843-1899). Inclusive pela tradução para o português de Retirada de Laguna, famosa obra do pai sobre a Guerra do Paraguai escrito originalmente em francês.
Mais conhecido como Terra dos Papagaios, o que aqui passaram, ou mesmo viveram. São relatos que descrevem antas com cabeça de gente, beija-flores que nasciam de ovos de borboleta, felinos com pés humanos, porcos com umbigos na coluna vertebral, cobras voadoras e outras bestas fantásticas.
Em Zoologia Fantástica do Brasil, Afonso de Taunay realiza um estudo sobre o tema e apresenta os relatos mais significativos do universo fantástico da fauna brasileira nos séculos 16 e 17. Um dos seres que alimentaram o imaginário dos europeus era a jibóia, a enorme serpente tupiniquim. São várias as fontes que descrevem a jibóia como uma cobra que matava introduzindo a cauda no ânus da presa, seja animal ou homem, perfurando o intestino. Gabriel Soares de Souza, em seus relatos, descreve da seguinte maneira o comportamento da jibóia após ter engolido a presa: E como se sente pesada, lança-se ao sol como morta, até que lhe apodrece a barriga, e o que tem nela; do que dá o faro logo a uns pássaros que chamam urubus, e dão sobre ela, comendo-lhe a barriga com o que tem dentro, e tudo mais, por estar podre; e não lhe deixam senão o espinhaço, que está pegado na cabeça e na ponta do rabo, e é muito duro; e como isso fica limpo de toda carne, vão-se os pássaros e torna-lhe a crescer a carne nova até ficar a cobra em sua perfeição; e assim como lhe vai crescendo a carne, começa a bulir com o rabo, e torna a reviver, ficando como dantes.
Felinos com cabeça humana que carregavam os filhos nas costas e araras que quebravam correntes de ferro com o bico eram seres inofensivos perto dos homens marinhos. Chamados pelos índios de upupiara (ou igpupiara), são descritos como habitantes dos rios que afogavam os pescadores sem piedade. Temidos, matavam de maneira peculiar. No relato de Pero de Magalhães, a cena era a seguinte: O modo que tem em matar é: abraçam-se com a pessoa tão fortemente beijando-a e apertando-a consigo que a deixa feita toda em pedaços, ficando inteira, e como a sentem morta dão alguns gemidos como de sentimento, e largando-a fogem; e se levam alguns comem-lhe somente os olhos, narizes, e pontas dos dedos dos pés e das mãos, e as genitálias, e assim os acham de ordinário pelas praias com estas coisas menos.
O interessante é que Taunay revela que já no século 17 lendas como a do boitatá e do curupira frequentavam as conversas noturnas. O medo era combustível para a imaginação fantástica, e a imaginação fantástica alimentava o poder de sedução do medo.
Zoologia Fantástica do Brasil (Séculos XVI e XVII) De Afonso de Escragnolle Taunay, Editora Edusp e Museu Paulista, apresentação de Odilon Nogueira de Matos, 112 páginas, R$ 22,00.





