São Paulo, 19 (AE) - Respire fundo e devagar antes de entrar no teatro. Os cinco primeiros minutos do espetáculo "Dentro da Floresta - Rashomon", que estréia amanhã (20), foram planejados para fazer o espectador saltar do acelerado ritmo urbano ocidental para um tranquilo e calmo estado de concentração, tudo para ouvir a boa história interpretada pela atriz Viviane Dias.
Inspirado no conto homônimo de Ryunosuke Akutagawa - adaptado para o cinema por Akira Kurosawa no filme "Rashomon", vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1950 -, "Dentro da Floresta" tem texto adaptado por Alberto Resendes, também responsável pela direção do monólogo. "Li o texto há cinco anos e, na ocasião, pensei em levá-lo ao palco, mas era só um projeto
muito distante de qualquer realização", afirmou Viviane.
O projeto ganhou corpo há um ano, quando ela mostrou o conto a Resendes. "Ele concordou que a história era muito teatral e a estrutura do texto seria ideal para um monólogo, porque propiciava fugir do solilóquio interior característico do gênero". Riscos - A história transcorre no Japão onde um homem é encontrado morto na floresta e sua mulher, que o acompanhava, desaparece. Por insistência da mãe da moça, tem início uma investigação e Tajomaru confessa o crime. Porém não é o único. "A história tem muitos personagens, que não dialogam entre si e é uma grande brincadeira sobre a verdade", diz Viviane. Sem trocar de figurino, a atriz encarna todos os personagens: entre eles o lenhador que encontrou o cadáver; a mãe da mulher desaparecida; um monge que teria encontrado o casal antes do ocorrido, a mulher do homem assassinado e o assassino confesso.
Viviane não nega os riscos embutidos na ambição de transmutar-se em vários personagens em menos de uma hora de espetáculo. "Ensaiamos durante um ano, justamente para fugir da caricatura, das concessões e facilidades", garante. Segundo a atriz, o espetáculo foi todo pautado pela delicadeza e sutileza. "Não há mudanças de figurino e as transformações no registro de voz e gestos são sutis", afirma. "A busca foi por um mergulho na humanidade de cada personagem".
O palco foi dividido ao meio e os personagens transitam entre o tempo presente - no qual são interpelados por um juiz - e o da memória, no qual folhas secas, bambus e toras de madeira representam a floresta, onde o crime teria ocorrido. Mas chega um momento no qual esses planos se confundem. "Antes de mais nada, trata-se de uma boa trama de mistério e suspense, sem solução no fim, uma história ideal como metáfora deste nosso tempo no qual não há mais teorias explicativas", diz Viviane. "Uma história pertinente, sem ser óbvia". Serviço - "Dentro da Floresta - Rashomon". De Ryunosuke Akutagawa. Dir. de Alberto Resendes. 5.ª e 6.ª, às 20h30. R$ 10. Sesc Consolação - Sala Ímega. R. Dr. Vila Nova, 245, tel. 234-3077. Até 11/2

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