Monólogo "Preso entre as Ferragens" estréia no Ruth Escobar
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Monólogo "Preso entre as Ferragens" estréia no Ruth Escobar8/Mar, 14:34 Por Beth Népoli São Paulo, 08 (AE) - O público entra no teatro. Pouco depois de acomodar-se ouve o barulho de um violento acidente automobilístico: derrapagens, clarões, um terrível grito humano misturado a vidros quebrados, pneus estourando, plástico, ferro e lata amassando-se e retorcendo-se. A cortina se abre e lá está um homem preso entre as ferragens de um carro. O acidente é o ponto de partida do monólogo "Preso entre Ferragens", de Fernando Bonassi, dirigido por Eliana Fonseca e interpretado pelo ator Aury Porto, que estréia sexta-feira no Teatro Ruth Escobar. Amanhã (09), o espetáculo será apresentado numa sessão especial para convidados. "O que acho mais legal nessa peça é mostrar uma situação a que todos nós, urbanóides, estamos expostos", diz Bonassi. Pensando nisso, a diretora Eliana reduziu para 119 o número original de 317 espectadores da sala Gil Vicente. "O envolvimento do público nessa peça é muito importante e, para que isso ocorra, a proximidade física entre ator e espectador é fundamental", diz Eliana. "As pessoas engarrafam as estradas durante um acidente porque querem ver bem de perto", lembra ela. Para garantir essa proximidade, o palco ganhou um avanço sobre o qual ficam as ferragens retorcidas pós-acidente. Numa peça na qual o único ator tem sua mobilidade reduzida - ele tem toda a parte direita do corpo imobilizada, só podendo utilizar o braço esquerdo e parte do tronco -, cresce em importância o trabalho da equipe técnica. A cenógrafa Márcia Barros ambientou todo o teatro para o espetáculo, na tentantiva de transportar o espectador para a aridez do asfalto numa estrada deserta. O iluminador Guilherme Bonfanti também terá papel importante, uma vez que toda a ação transcorre no escuro, entre a madrugada e o amanhecer de um único dia. Primeiro texto teatral escrito por Bonassi, depois de ele ter presenciado um terrível acidente numa estrada de Cuiabá, "Preso entre Ferragens" ficou na gaveta do autor por dez anos, por ser considerado de difícil montagem. No entanto, personagens em situações claustrofóbicas e no limiar da tragédia já começam a tornar-se sua marca registrada. Bonassi é o autor do romance "Um Céu de Estrelas", levado às telas pela cineasta Tata Amaral, e ainda do texto do espetáculo "Apocalipse 1,11", dirigido por Antônio Araújo com o Grupo Teatro da Vertigem. Foi o seu "fio terra" - como Araújo definiu a ligação da obra de Bonassi com a realidade - que levou o diretor de "O Livro de Jó" a convidá-lo para escrever o texto de "Apocalipse", depois da recusa de Plínio Marcos, primeiro dramaturgo cogitado para a tarefa. "Não sou um cara violento, amo a minha mulher e acho que, por isso mesmo, posso criar personagens violentos", diz Bonassi. "A arte propicia ao criador e aos espectadores a chance de vivenciar uma experiência trágica e aprender com ela, sem ter de passar pela dor do personagem". Ele observa que a grande dificuldade do artista contemporâneo é conseguir emocionar e provocar a reflexão do espectador depois de tantas experiências impactantes já realizadas no palco. "Acho que fiz um gol com "Preso entre Ferragens", acho que é um dos meus acertos", diz. Segundo ele, o mérito está na situação, o texto não é o mais importante. "Que ninguém espere um historinha; o que está no palco é uma gama de estados de espírito, do riso ao choro". Bonassi chegou a acompanhar o trabalho de resgate dos bombeiros na estrada durante um tempo. "A gente vê coisas incríveis, como uma mulher com um corte imenso na perna - depois amputada - preocupada em localizar sua bolsa", lembra. O personagem que o público verá no palco do Ruth Escobar também manifesta preocupações tragicômicas. Apesar de negar a historinha, o monólogo vai aos poucos revelando que o acidente talvez não tenha ocorrido por acaso. Mas isso já é outra história. "O que eu quero é conseguir dizer para o espectador: olha aí, você podia estar nessa; já pensou o que está fazendo de sua vida?" Bonassi admite que um carro amassado com um sujeito preso nas ferragens não pertence à linguagem do palco. "Esse ruído de linguagem é interessante", afirma. "Uma situação que, já de saída, briga com o palco abriga uma carga de originalidade e uma densidade fundamentais para mexer com o espectador". Serviço - "Preso entre Ferragens". Drama. De Fernando Bonassi. Direção de Eliana Fonseca. Duração: 1 hora. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 15,00 (sexta) e R$ 20,00. Teatro Ruth Escobar - Sala Gil Vicente. Rua dos Ingleses, 209, tel. 289-2358. Até 30/4. Amanhã só para convidados