São Paulo, 25 (AE) - Para quem, como o grupo Sobrevento, formado em 1986, se dedica à pesquisa, em nível prático, da animação de bonecos, formas e objetos, nada melhor do que mergulhar com afinco no trabalho do escultor americano Alexander Calder, o consagrado criador dos móbiles - este é o ano de seu centenário de nascimento. O resultado desse oportuno casamento está no espetáculo "O Anjo e a Princesa", em cartaz no Teatro Cacilda Becker, na Lapa, em São Paulo.
A peça é daquelas que se pode encher a boca para dizer dela: é opção para todas as idades. Sozinha no palco, Sandra Vargas, também autora do texto, compõe uma atraente sinfonia cênica de delicadeza, própria para agradar a pais e filhos. Além da competência técnica de bonequeira, manipulando móbiles, bonecos e outros objetos com uma presteza de mestre, Sandra desdobra-se em mil e um outros talentos no palco, marcando sua interpretação como uma das melhores já vistas nos últimos tempos no teatro infantil.
A história é a de um anjo da guarda que conta como foi sua estréia na função de guardião de uma vaidosa princesa. Sandra Vargas, como contadora de histórias, está perfeita, recuperando a força da tradição oral e instaurando um delicioso clima de fantasia do tempo de nossos avós. Apoiada pela direção segura de Luiz André Cherubini, ela comete dois únicos e rápidos deslizes: cai vítima da obviedade e do didatismo.
No primeiro caso: ela diz que o mundo dá voltas e sai rodopiando pelo palco. É um recurso óbvio demais, que destoa no todo do criativo espetáculo. No segundo caso: em vez de esperar a participação espontânea da platéia, ela força as respostas da garotada no momento em que cita palavras antônimas. Vira aula de português, com ranço didático desnecessário.
Nada óbvia é a cena do baile, em que a atriz simplesmente move um dos móbiles e o efeito visual resultante desse simples gesto faz o público entrar no clima de uma grande celebração. Ponto para a fantasia. O ótimo figurino, na verdade o único vestido usado por Sandra Vargas na peça, segue a linha da estética de Calder. Ponto para a coerência. A iluminação de Renato Machado, que colocou spots à vista do público no canto esquerdo do palco, é eficiente. Ponto para a técnica.
Destaque-se também a cena da princesa escolhendo o vestido com a ajuda da ama. É um grande momento de Sandra Vargas
que desfila uma série inacreditável de nuances de voz, sem perder o fôlego e o talento. Repare, ainda, no colorido e na funcionalidade dos bonecos criados para o espetáculo. Dá vontade de levar para casa.

mockup