Mônica Salmaso lança seu excelente CD "Voadeira"
São Paulo, 24 (AE) - Uma relação dos melhores discos do ano apontará obrigatoriamente o CD "Voadeira", de Mônica Salmaso, lançamento Eldorado, já à venda. Mônica foi a vencedora do 2.º Prêmio Visa de MPB - Edição Vocal. A premiação deu-lhe dinheiro, um automóvel e o direito de gravar um disco. Ela fez uma obra-prima. Deu-nos o prêmio.
Mônica Salmaso é uma cantora de carreira emblemática dos tristes anos 90. É uma grande dama da canção. Quem a ouviu, perdeu-se de emoção. Poucos a ouviram. Guinga apaixonou-se por ela. Edu Lobo apaixonou-se por ela. Fátima Guedes apaixonou-se por ela. Jornalistas especializados e produtores musicais que participaram do júri no final do Prêmio Visa apaixonaram-se por ela.
Alguém comentou que naquela mesma sala do Teatro Cultura Artística havia assistido ao nascimento de uma estrela, há décadas: Elis Regina. Contemplava o surgimento de outra, de porte tão nobre quanto. Infelizmente, os tempos são outros. Mônica dificilmente será um nome popular. Salvo as exceções de praxe, não se permite que os radioespectadores e telespectadores ouçam música boa. O que não é ouvido não é popular.
Mônica permanece num gueto, construindo a brilhante carreira numa lastimável surdina. Cabe falar dela, e muito, na esperança de ampliar seu público. A obra de Mônica Salmaso é uma contribuição cultural de importância maior. É buriladora de sensibilidades, ativadora de percepções sutis e elegantes. Mônica é a voz da elegância e da inteligência.
O grande canto popular brasileiro deu poucas cantoras assim, dessas que surgem com o estilo próprio, a marca definida, a personalidade intensa e inconfundível. Mônica prossegue é da linhagem de Elisete Cardoso, Alaíde Costa, Nana Caymmi, Maria Bethânia. É marca registrada, nasceu marca registrada.
"Voadeira" é seu segundo solo. Mônica fez participação em discos coletivos. É a voz da formidável Orquestra Popular de Câmara (que tem um lindo CD lançado). Gravou, dividindo a titularidade com o violonista Paulo Bellinatti, os afro-sambas de Baden Powell e Vinícius de Morais. Seu primeiro disco-solo foi o surpreendente e pouco conhecido "Trampolim".
Em "Voadeira", Mônica aprofunda o projeto estético de "Trampolim". Trabalha, preferencialmente, com pequenas formações. Será, talvez, porque orquestras são caras demais. Em todo caso, Mônica consegue resolver a equação e faz valer o famoso dístico menos é mais - como na gravação de "Minha Palhoça", de J. Cascata, em que, sob sua voz, paralelos à ela, estão apenas o cajon tocado por Marcos Suzano e o clarinete eloquente, em diálogo constante, de Proveta.
"Minha Palhoça" é dessas músicas de que se diz: todo mundo sabe. A repetição exaustiva é boa e ruim. Boa quando populariza música boa. Ruim porque, nesse processo, se perdem detalhes. Mônica expõe todas as notas da melodia inteligente, nuances que mesmo nas gravações autorizadas foram sendo perdidas. Faz isso com seriedade quase didática - são seus cuidados que determinam o cuidado, é o profundo respeito pela obra. Seriedade e didatismo não significam falta de humor e emoção. Edu Lobo comporta-se assim. Chico Buarque também. Ou o Quarteto em Cy. Ou Dorival Caymmi. Ou Tom Jobim, sempre. Ela é do time.
Mônica não levanta bandeiras, mas leva na obra o estandarte de uma brasilidade profunda, tratada de maneira culta
emblema da (re)construção de uma heráldica de amplo espectro, abrangendo da moda "Senhorinha" (Guinga e Paulo César Pinheiro) à cantiga preguiçosa "Silenciosa" (Fátima Guedes), à revisita da toada de "A Violeira" (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), à embolada "Beradêro" (Chico César), ao samba-lamento "Ave Maria do Morro" (Herivelto Martins) e ao enredo "Ilu-Ayê "(Cabana e Norival Reis). Cantando "Cara de Índio" (Djavan), Mônica deu à música dimensão que talvez nem o autor houvesse percebido. Você já ouviu essas músicas. Ouça Mônica. Você nunca ouviu essas músicas.





