Assim como a seleção de Cannes-98 reservou para o fim da competição o trunfo que levaria a Palma de Ouro, também Veneza deixou para os derradeiros momentos o finíssimo biscuit que coloca a mostra em seu nível mais alto. E este é de fato um nível muito acima do que se viu até agora. Somente os misteriosos desígnios de um júri, ou um grande e surpreendente filme de última hora - o americano de Warren Beatty, o francês de Nicole Garcia ou o espanhol de Julio Medem, exibidos ontem - podem evitar que o Leão de Ouro seja destinado à obra-prima iugoslava, longamente aplaudida por uma platéia já nos limites de suas forças e paciência.
Leão de Ouro em Veneza-81 com ‘‘Onde Anda Dolly Bell?’’ (inédito no Brasil), Palma de Ouro em Cannes-85 e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com ‘‘Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios’’, prêmio para melhor direção em Cannes-89 com ‘‘Vida Cigana’’, Urso de Prata em Berlim-93 com ‘‘Arizona Dream’’, e ainda Palma de Ouro em Cannes-95 por ‘‘Underground’’. O bósnio Emir Kusturica, 43 anos, é indiscutivelmete um dos autores mais premiados e mais estimados do cinema contemporâneo, nos últimos anos. Seu filme agora em competição em Veneza é ‘‘Gato Branco, Gata Preta’’, um deliciosa comédia negra sobre o mundo dos ciganos, mesclando de modo muito particular ação, sentimento, amor, ódio, dor, morte e sobretudo vida. Uma explosão de vida, que não por acaso emerge de uma região até há muito pouco tempo devastada pela guerra e pela destruição.
Uma história com ingredientes irresistíveis. Há elementos mais tipicamente, absurdamente ciganos que um casamento combinado, uma noiva que foge à última hora, uma boa patifaria envolvendo muito dinheiro, traições e voz do sangue, boa vida, ostentação e desregramento, uma alegria musical que não pára nunca e dois gatos como testemunhas das bodas - um gato branco e uma gata preta, simples e eficiente metáfora para o bem e o mal?
Mais uma vez longamente aplaudido durante a entrevista coletiva - alguém definiu o filme como ‘‘Gipsy’s Fellini’’, numa alusão pertinente mas um tanto exagerada - e tão interessante como os filmes que faz, Emir Kusturica disse que ‘‘os ciganos são aquelas pessoas que confirmam que pode haver permanentemente vida alternativa além da globalização que a tudo vem descaracterizando’’.
O filme nasceu originariamente da idéia de se fazer um documentário - previamente batizado de ‘‘Musika Akrobatika’’ - sobre os músicos que tocavam em ‘‘Underground’’, mas acabou se transformando numa tragicomédia de ficção, filmada na Eslovênia e na região do Danúbio (entre o verão de 96 e o primeiro semestre deste ano), e interpretada na maioria por atores não-profissionais, num elenco de eficiente espontaneidade. A propósito da música, o diretor ressaltou a ‘‘multiétnica mistura de gêneros interpretados por músicos que tocam todos os dias e que continuam sempre amadores’’.
‘‘Gato Branco, Gata Preta’’ é um hino que glorifica uma etnia, seus usos, costumes e dialeto, e que a coloca não como pano de fundo mas como personagem essencial de uma história familiar que se move entre o riso e a tragédia às vezes de maneira quase kafkiana. Afinal, o que é mais grotesco do que esconder um morto na casa onde se celebra um casamento, e mais tarde fazê-lo ressuscitar como um fantasma hamletiano ? Um filme para rir ou para chorar, para amar ou odiar mas que não aceita jamais a indiferença. Mais um inesquecível capítulo de emoção que se acrescenta à filmografia de Kusturica.
Por enquanto, resta a boa impressão deixada por ‘‘Rounders’’, que de certa forma está fazendo as honras do cinema americano, depois do fracasso de ‘‘New Rose Hotel’’ (o ‘‘Bulworth’’ de Warren Beatty tem boas referências). ‘‘Hurlyburly’’ (literalmente blábláblá,
zorra, confusão), de Anthony Drazan, fala de três amigos na Hollywood de agora. Seu relacionamento com as mulheres, com o trabalho, com as drogas e entre si. O filme deveria ser um retrato mais simples e mais eficaz sobre a natureza humana, uma espécie de observatório dessa condição. Mas é discursivo, complicado, teatral. Apesar de um bom elenco, à frente Sean Penn, Chaz Palminteri e Kevin Spacey, ‘‘Hurlyburly’’ é um desses independentes dispensáveis, que pouco ou nada acrescentam a um movimento cinematográfico que também tem seus dias nebulosos.
O irlandês ‘‘Dancing at Lughnasa’’, de Pat O’Connor, é outro pouco inspirado, excessivamente acadêmico. No background irlandês, cinco irmãs, lideradas por uma Meryl Streep em adiantado estado de ‘‘megerização’’. Vidas desperdiçadas, filme idem, indevidamente selecionado para a mostra oficial.ReproduçãoCena de ‘‘Gato Branco, Gata Preta’’, um dos favoritos ao Leão de Ouro
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Enviado especial a Veneza

mockup