MoMA expõe no MAM 125 imagens selecionadas em seu acervo
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terça-feira, 23 de março de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 24 (AE) - A exposição "Modos de Olhar: Fotografias do Acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA)", em cartaz a partir de amanhã (25) à noite no MAM de São Paulo, reúne o supra-sumo da fotografia mundial. São 125 imagens, cada uma de um autor diferente, selecionadas a dedo em meio a quase 30 mil fotos que foram sendo conservadas pelo museu americano desde que ele iniciou o acervo, ainda na década de 30.
Evidentemente, esse panorama é preferencialmente norte-americano e traduz as preferências do curador John Szarkowski, um dos maiores especialistas no assunto, que dirigiu o Departamento de Fotografia do MoMA de 1962 a 1991, quando passou a ser seu diretor emérito. Afinal, "uma caracterização adequada da obra de uma das grandes figuras da fotografia requer não 6, nem 10 fotos, mas 100", escreve ele na introdução do livro "Modos de Olhar", que também será lançado amanhã, em sua primeira edição em outra língua que não o inglês.
Mas acima de tudo a mostra procura ser ampla e abrangente. Entre os fotógrafos selecionados estão mestres como Man Ray, Moholy-Nagy, Henri Cartier-Bresson e Alexander Rodchenko ou estrelas contemporâneas como Cindy Sherman. No entanto, há também contribuições valiosíssimas de autores anônimos ou pouco conhecidos do público, confirmando a afirmação de que "a fotografia tem aprendido de si mesma sobre seu verdadeiro caráter não somente por intermédio dos grandes mestres, mas também por meio das simples e radicais obras de desconhecidos fotógrafos de modestas ambições".
É surpreendente a riqueza temática, estilística e técnica desse panorama. São retratos como a impressionante foto que Richard Avedon fez de Isak Dinesen em 1958 ou paisagens encantadoras tendo a natureza americana como protagonista. Há cenas urbanas impressionantes como aquela em que o fotógrafo de guerra Robert Capa mostra a população de Chartres olhando e rindo de uma colaboracionista que teve a cabeça raspada como punição por se ter relacionado com os ocupantes alemães (imagina-se que a criança que ela leva no colo possa ser fruto desta união).
"A coisa mais difícil para um fotógrafo é escolher o que fotografar", diz a vice-curadora da exposição, Susan Kismaric, que veio ao Brasil acompanhar a mostra - depois de São Paulo ela segue para o Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) no Rio e realiza amanhã às 17 horas uma palestra no auditório do MAM sobre a coleção. O museu também inaugura hoje mostra com obras recentemente restauradas ou adquiridas.
Outra imagem ao mesmo tempo brutal e singela é a de uma alegre família de japoneses que brincam sorridentes. O drama fica claro quando se lê a legenda: Sr. e Sra. Kotani: Duas Vítimas da Bomba, 1957. Só então a alegria deixa espaço para que o espectador veja as terríveis marcas no rosto e nas mãos do homem que carrega seu filho, revelando com toda a crueza que a vida precisa continuar, apesar de tudo. O autor, Ken Domon, passou uma temporada em Hiroshima para registrar as vítimas da bomba e consta que frequentemente ele chorava enquanto trabalhava. A intensidade dramática aumenta ainda mais quando se observa ao lado a foto de uma garrafa de cerveja fotografada depois de ter sido atingida pela bomba. Trata-se de um objeto irreconhecível, que mais parece uma salsicha translúcida e radioativa.
Uma característica fascinante de "Modos de Olhar" é que ela deixa evidente a enorme capacidade de experimentação dos fotógrafos, que parecem estar permanentemente vencendo barreiras - mesmo quando realizam trabalhos de caráter menos artístico como o fotojornalismo e a fotografia de registro. Em alguns casos, tem-se a impressão de que trabalhos realizados ainda no século passado são extremamente contemporâneas e é possível encontrar interessantes diálogos entre as 125 obras expostas. Em 1925, Edward Weston fez a foto Torso de Neil que, de certa forma
funciona como um corte em direção ao abstracionismo na seleção do MoMA. Exatamente 60 anos depois, John Coplans realiza um auto-retrato nu, de costas, no qual transforma seu corpo de velho em uma estranha paisagem.
Há também na mostra uma série de interessantes contrapontos com a história da arte, como Madona e a Criança, de Julia Cameron, ou uma série de obras de meados do século, que estão em evidente sintonia com os movimentos construtivos do momento. "O que está claro é que as possibilidades são infinitas", conclui Susan.


