De hoje até o dia 22 de janeiro, o cinena brasileiro estará presente em Nova York. Ao todo serão apresentados 61 longas-metragens e 17 curtas realizados nas últimas quatro décadas. A retrospectiva ‘‘Além do Cinema Novo’’ será exibida no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), e está sendo considerada a mais importante mostra internacional dedicada ao cinema brasileiro.
O evento é uma ação conjunta entre o Ministério da Cultura do Brasil e o Departamento de Cinema e Vídeo do MoMA. A Mostra está sendo organizada por Jynette Jensen, curadora do Museu e pelos críticos brasileiros José Carlos Avellar, da RioFilmes, e Ismail Xavier, da Universidade de São Paulo. A abertura oficial aconteceu ontem, com a exibição do filme ‘‘Ação Entre Amigos’’, de Beto Brant, durante um coquetel para convidados.
Divulgação‘‘Gaijin’’, de Tizuka Yamasaki, também foi selecionadoO ciclo reúne a produção cinematográfica compreendida entre 1961 e 1997 e será aberto ao público em geral. A idéia é fornecer aos norte-americanos um retrato completo do cinema brasileiro. Hoje serão exibidos os filmes ‘‘A Hora da Estrela’’, de Suzana Amaral e ‘‘Bye Bye Brasil’’, de Cacá Diegues. A década de 60 é a responsável pela maior concentração de títulos: nada menos que 21 dos 61 longas que serão apresentados foram realizados nos anos 60, considerado o pico da produção cinematográfica brasileira. Para os anos 70, sobraram 14, para os 80, 12 longas e, para a década atual, 13 filmes.
A seleção dos títulos coordenada por Jynette Jensen, Ismail Xavier e Carlos Avellar é representativa e reúne o que existe de melhor no cinema nacional. Mas foram cometidas algumas injustiças. A concentração exagerada de produções do Cinema Novo prejudicou a inclusão de bons filmes realizados nos anos 80 e, principalmente nos anos 90. Mesmo privilegiando o Cinema Novo, os organizadores deixaram de fora ‘‘Os Cafajestes’’, de Ruy Guerra, uma produção de 1967, que representa uma proximidade da nouvelle vague com o cinema brasileiro.
Sem dúvida, a década de 70 é a que está melhor representada. Numa época marcada pelas pornochanchadas, não poderiam ficar de fora títulos como ‘‘Toda Nudez Será Castigada’’, ‘‘Dona Flor e seus Dois Maridos’’, ‘‘Gaijin’’, entre outros. Dos anos 80, é lamentável a exclusão de ‘‘Nunca Fomos Tão Felizes’’, de Murilo Salles. Um belíssimo filme que fala sobre a perda da inocência. É uma espécie de ‘‘Vidas Amargas’’ do cinema nacional.
Reprodução‘‘O Quatrilho’’, de Fábio Barreto, é um dos representantes dos anos 90Devido à grande produção dos últimos anos, a década de 90 foi a mais prejudicada. A começar por ‘‘Carlota Joaquina’’, de Carla Camurati, tido como marco da retomada do cinema nacional. O filme foi simplesmente esnobado. É difícil explicar também a ausência de ‘‘Canudos’’, de Sérgio Rezende; do belo e poético ‘‘A Ostra e o Vento’’, de Walter Lima Jr. e de ‘‘Baile Perfumado’’, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, um dos filmes mais vigorosos e criativos desta década. Já ‘‘Boleiros’’, de Ugo Giorgetti, foi incluído de última hora, graças a um pedido pessoal do ministro da Cultura Francisco Weffort.
Mas o grande injustiçado da Mostra é o chamado ‘‘cinema popular’’. Não foi incluído, por exemplo, nenhum filme de cineastas originais como José Mojica Marins, criador de Zé do Caixão, um dos personagens mais conhecidos no Brasil, e de Mazzaropi. Apesar de criteriosa e representativa, a seleção deixa transparecer um certo intelectualismo que negligenciou a importância do cinema como entretenimento de massa.
Por outro lado, é difícil criticar a seleção deste ou daquele filme, pois todos têm sua importância dentro da cinematografia brasileira. Mesmo com essas lacunas, os norte-americanos que acompanharem o evento poderão ter uma idéia bem completa do conjunto de um cinema muito diferente daquele produzido por Hollywood. Vale ressaltar que ‘‘Central do Brasil’’ não foi selecionado porque está em cartaz em circuito comercial nos Estados Unidos. Injustiças à parte, não se pode negar que esta Mostra é fundamental para a divulgação do cinema nacional no exterior, podendo contribuir para abrir o mercado internacional para os cineastas brasileiros.

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