Vamos supor que a fome seja tanta e o dinheiro nem tanto que não haverá saída: você terá que ir ao supermercado. Se a disposição para a vida é acordar cedo, ouvir os passarinhos, sentir-se vivo entre cheiros, cores e sabores, vá à feira. Além do mais, as feiras sempre têm um quê de época medieval e desperta novamente em nós prazeres simples - experimentar a fruta da estação, comer um pastel mesmo sabendo que ele foi frito em óleo que já virou quase diesel. O sabor sempre é especial por estarmos ao ar livre e ouvir, enquanto comemos o delicioso e insuperável pastel, o cego que canta e esmola para comprar xepa... Chega-se à conclusão que não somos muito diferentes das formigas - acabamos carregando provisões muito satisfatórias e a soberba cai por terra. Como formigas, todos precisamos comer. Durante minha longa vida de cozinheira - e é a cozinheira quem tem que escolher os ingredientes - consegui enfastiar-me profundamente em lugares onde se compram alimentos sem ser as feiras. Em locais fechados, sem bandos de lúmpens tão bonitinhos que podem até nos roubar, a coisa já fica bem menos emocionante... E outra, os mercados acabam, talvez pela ''formatação'' dos funcionários, fazendo com que a gente se sinta um robô programado para fazer compras. Um ou outro ser desses corredores entulhados raramente nos dão um sorriso, falam da qualidade de determinado produto ou trocam uma brincadeira. Isso para mim é como um sopro de calor humano e, sem dúvida, é o produto mais valioso que levo para casa. Fora isso, tambem coloco minha máscara - não olho para nada, procuro ouvir música, isolada na minha individualidade de consumidora selvagem. E como uma lépida corça trato de dar o fora o mais rápido possível, escolhendo apenas o necessário.
Sinto saudades dos velhos armazéns, das quitandas (agora os chamados sacolões) onde frutas, verduras, flores, condimentos e doces se misturavam em odor único e inconfundível. Os armazéns, com seus produtos a granel expostos - eu sempre dava um jeito de ficar perto dos sacos de farinha de milho e mandioca e do açúcar cristal, verdadeiras delícias de se pesticar. Enquanto isso conversava-se com o dono (sempre português, japonês, árabe ou italiano) e isso dispensava jornal, televisão, rádio, etc: num contato de terceiro grau com ele, um misto de comerciante e fofoqueiro do bairro, que em sua sabedoria simples nos fazia sentir únicos, atendidos, informados e especiais, mesmo sem o cheque e o cartão. Comprar comida deveria voltar a ser um ato prazeroso, mas infelizmente vemo-nos cada vez mais envolvidos em tecnologias, globalização, ganância que acabam deixando a comida até sem gosto. O ato de comprar o alimento é tão importante quanto o de prepará-lo. Portanto, levanto aqui minha bandeira pela volta dos velhos e bons armazéns e feiras fervilhantes de vida...

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