...‘‘A mudança para o ambiente marinho funcionou como uma espécie de mágica, e a partir do meio-dia eu passava três ou quatro horas saboreando tudo com uma capacidade hoje inexistente em mim, mas que na elegante saleta de refeições não tinha nada de gulodice nem de grosseria. Enguia defumada e aquavit, Hung Yuen Gai Ding e vinho de osso de tigre - o que havia nas taças balançava com sutileza extrema, de um lado para outro, e nossos corações sentiam a força das ondas...’’ (Um alfabeto para gourmets - MKF Fisher.)
Como tudo no mar tem outro sabor, até no que sentimos, precisamos prestar atenção também, e muita, no que desce goela abaixo. Uma indigestão marítima pode estragar a viagem e assumir proporções de pesadelo. Uma bad-trip, exagerada pelo barulho das ondas ao fundo. Se estiver num barco, é melhor então arrumar uma saleta como a que nos diz MFK Fisher e esperar tudo passar. Como diz um amigo, ‘‘o espectro de comida’’, caracterizado por um Xis Qualquer Coisa, não faz sentido e não combina com um jantar à beira-mar, com a lua refletindo além das ondas e um barco com as velas tremeluzindo na linha do horizonte. No seu jantar marítimo, sugiro que comecemos servindo de aperitivo as pedras comestíveis que são os pequenos vôngoles e que só dão (de montão) em alguns tipos de praia. Se sua praia for agraciada com tais pedrinhas, recolha-as no regaço de uma camisa e frite-as, como na receita:
Pedras Rolantes ao Azeite
(Para quatro pessoas)
Coloque 2 quilos de vongole de molho na água e vinagre por uma hora. Na peixaria é fácil encontrar congelados. O ideal são os recolhidos no regaço das roupas, o que passa até a ser um detalhe da receita, se for possível. Longe da praia, procure ser avisada pelo teu peixeiro assim que as pedrinhas, ainda vivas entre o gelo, cheguem do mar. Bem, escorra a água, enxágue sob a torneira e despeje-as imediatamente em uma frigideira com meio dedo (deitado) de azeite. Coloque fogo baixo depois do ‘‘tchiiiii’’ e, quando começarem a soltar água, pingue limão um pouco de molho de soja, molho inglês e abafe até a água começar a secar. Com espátula revire rapidamente, acrescente mais um fio de azeite, prove o sal. Não as queime, e ouça que barulho interessante faz este prato com as pedras entrechocando-se. Sirva imediatamente, com pratinhos ao lado para as cascas e literalmente sugando o mais que puder o delicioso caldinho que se desprende da concha. A pequena ostrinha dentro tem uma carne deliciosa e pode ser colocada diretamente na língua das crianças, que terão assim sua dose de zinco suprida sem engasgar e sem efeitos colaterais. As que não abrirem na fervura, terão que viver mais uma encarnação. Rejeite-as pois estarão estragadas. Este aperitivo, tão inusitado, é bom com cerveja, vinhos brancos e limonada. Regale-se como uma sereia neste prato digno de Netuno.
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