MOLHO - Secos e molhados
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004
Maria de Los Angeles<br> Especial para Folha 2 
Navegar é preciso, viver não é preciso, diz a canção lusitana, cheia de significados. Assim que abri os olhos hoje, veio-me uma lembrança: um velho armazém, o do Seo Joaquim da Esquina, e a explicação do negócio em um cartaz rudimentar: Secos e Molhados. Sempre havia um gato por perto como minha gatinha atual, vira-lata legítima, a Frida. Esta gata morava na despensa, atrás dos sacos de secos: do café a ser moído, da farinha de mandioca, dentro daqueles cheiros todos, do sal. O bacalhau, sequíssimo e muito bem salgado, guardado em caixa de madeira especial, lá dos esquecidos Portugais. A gata e seus filhotes, cientes que a moradia estava garantida enquanto não deixassem entrar um só camundongo. E de quebra, de vez em quando, por bondade do Seo Joaquim, uma longa espinha de bacalhau para roer com seus filhotes. Isso que se chamaria microequilíbrio dos seres que também precisam viver no planeta, saúde básica. A cada ninhada olhava na cara da Ziquizira (este era o nome da gata) e dizia: ''Antes tu e teus filhotes do que ter a despensa empesteada de ratos!'' Pois, pois, lembrei-me também que os homens faziam uma roda e as mulheres outra, as crianças em volta dos ''molhados'' como sorvetes, refrescos, chicletes - campeonatos de quem fazia a bola maior rolavam. Agora o reconheço, o Seo Joaquim era um robitt, ou duende, como quiserem. Um ser entre a realidade e algum tipo de terceira dimensão, mais uma espécie em extinção. A gatinha sempre ao lado dos seus pés e estes dentro das botas. Sinal de respeito com seus clientes. Que vinham ao cair da tarde para a ''tertulia'' que agora seria o happy-hour. Esse ''mago'' anônimo que era nosso vizinho, cheio de sabedoria e de uma atitude cirscunspecta e cômica ao mesmo tempo servia-nos, a certa altura da noite, algo para comer:
Secos
O aperitivo: Pegue 2 sardinhas salgadas dessas que vem em caixote de madeira e que depois o supermercado embala em gramas, para cada participante. Com várioss pedaços de papel de pão embrulhe as sardinhas e aperte-as rapidamente num golpe, na dobradiça de qualquer porta. Assim você vai tirar a pele e o sal mais grosso ao mesmo tempo, de maneira muito mais fácil. Voilá, deixe os filés sem espinhas e limpos das entranhas.Regue-os com azeite. O aliche que compramos em vidrinhos ou latas é feito assim, já limpos. Para acompanhar, tomates cortados em quatro gomos e pão.
Maria de Los Angeles é chef de cozinha do restaurante Paella Como te Gusta e colaboradora da Folha.


