MOLHO - Refeições em família - 1
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de novembro de 2003
Maria de Los Angeles<br> Especial para Folha 2 
Xantipa. Não é o nome de nenhum manjar, é o nome da que foi mulher de Sócrates. Conta a história, uma autêntica megera. Uma de minhas autoras prediletas, M.K. Fischer, tem um capítulo que se chama X de Xantipa, que transcrevo letra por letra: ''Um dos métodos infalíveis para envenenar o repasto de seu parceiro, seja ou não ele sábio como Sócrates, e chame-se ela Xantipa ou Sarah-Jane ou Francesca, rotineiramente implicante ou simplesmente 'num dos seus dias'. Provavelmente nenhuma estrecnina mandou tantos maridos para a cova quanto reclamações durante a refeição, e talvez nada seja tão eficiente para lançar o parceiro nos braços de outra (outro), como o som de uma choradeira estridente à mesa. O mau humor exemplar de Xantipa entrou para a história; não sei o quanto exercitava sua rabugice nas refeições que servia a Sócrates, mas estou convencida de que não há melhor cultura para o crescimento dos germes da discórdia matrimonial, do que a refeição em família. Até a cama fica em segundo lugar, pois a noite e a cessação momentânea da fadiga física e do langor podem temperar as palavras mais duras. Nada porém atenua o choque provocado por resmungos sobre um prato de omelete e salada. Brillat-Savarin falou muito a esse respeito, e sem meias palavras. Mas cada um de nós tem o direito a acrescentar uma versão própria do caso, e, na condição de viúva duas vezes, tanto de marido vivo como de morto, posso dar testemunho de que todo homem que se abriu comigo (o que todos eles acabam fazendo diante de uma mulher aparentemente solitária) e se disse incompreendido pela esposa confessou afinal, que tentava chegar em casa bem disposto e paciente para jantar, mas que Sarah-Jane ou Francesca se sentava à mesa com tamanho arsenal de carrancas e censuras que, para salvar a pele ele sentia a necessidade de fugir correndo dali.''
E continua:''Sócrates escapou de Xantipa por meios impossíveis ao homem moderno, por mais filósofo que seja. Hoje em dia um pensador menos dotado precisa se esconder num bar da Terceira Avenida, e mastigar um bife rijo com batatas ainda piores, caso não tolere a idéia de ir para casa e encarar a mulher azeda com quem a lei o obriga a viver. Ele suspira, bebe, e olha o próprio rosto no espelho, grato por não ver ali a beleza contraída e murcha da esposa, a Sarah-Jane ou Francesca que o empurrou para lá''. (Trecho do livro ''Um alfabeto para gourmets '', de M.K. Fisher).
Essa mulher, continua falando por várias páginas do assunto delicado que expõe, de maneira contundente, bem humorada e terrivelmente sincera. Continuo e dou receita, na semana que vem, para os homens curarem o ''Complexo de Xantipa'' que todas as mulheres tem em diversos graus. Incluo-me num desses graus, mas, admito, já fui muito pior.
Maria de Los Angeles é chef de cozinha do restaurante Paella Como T Gusta e colaboradora da Folha.


