No armazém de secos e Molhados do Seo Joaquim um personagem da minha infância não havia decoração alguma, a não ser barris de azeitonas, uns vazios, outros cheios, que faziam as vezes de mobiliário. Como nessa época ainda não existia televisão, as únicas telas eram o céu estrelado ou um braseiro no inverno, onde convenientemente assavam-se coisas . As conversas giravam nos acontecimentos do dia, e as antigas: a Guerra civil, quem morreu, o ouro doado (por onde andará ?) para o bem do Brasil, os comunistas, a última moda. Acabava virando um duelo de mentes e a conversa ia esquentando, molhada a vários ''molhados'' alcoólicos ou não. Quando a discussão se acirrava e os chápeus começavam a ser jogados ao chão. Nós, as crianças, parávamos nossos jogos para cupidamente, prestar atenção ao palavrório. Eis que um dos oradores se destaca, começa a contar um ''causo'' de fantasmas. Agora sim faz-se um silêncio, interrompido só pelo chiar de fritura e a voz do contador. Em seguida uma rodada de bolinhos de bacalhau preparados pela mulher do português:


Bolinhos da cachopa
(para seis pessoas)

Prepare a massa: 600 gramas de bacalhau desmiuçado e desalgado/ 3 copos de leite/ 1 copo de azeite/ 250 gramas de farinha refinada e 250g de farinha integral/ 2 cebolas picadas/ raspas de noz-moscada/ cheiro-verde picado quase invisível/ Maizena ou araruta/ sal/ óleo para frituras.
Refogue o bacalhau com as cebolas e os temperos até começar a dourar. Acrescente o leite até ferver. Torre as farinhas em frigideira grande e vá peneirando e mexendo sem parar sobre o leite fervente, até virar um mingau tão grosso que se veja o fundo da panela. Tampe até esfriar. Quanto mais gelada a massa mais certo dão os bolinhos. Estando gelada, esquente o óleo, lave e molhe as mãos para formatar os bolinhos. Passe ma Maizena ou farinha de araruta, frite e coma imediatamente. Deliciosas azeitonas pretas eram comidas junto com os bolinhos.

Maria de Los Angeles é chef de cozinha do restaurante Paella Como te Gusta e colaboradora da Folha.

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