Quando essa coisa de etiqueta à mesa acontece de ser mais importante que a comida servida, é o mesmo que estimar um quadro pela moldura. Agora que já transcendi o bem e o mal dentro de uma cozinha, sentemos à mesa.
A barafunda de talheres e seu brilho ofuscam qualquer resquício de fome sincera, não sei em qual copo tomar primeiro e fico inundada de embriaguez com os copos vazios. Usar as pontas dos dedos (meticulosamente limpos) numa mordisquela sagaz e nutridora na salsinha, pode ser considerado falta de ''bons modos''. A educação é bonita sim. Acho linda a maneira como os franceses arrumam a mesa, num excelente exemplo de que o bom e o belo deveriam sempre andar de mãos dadas. Mas, depois que Jesus sentou-se na Última Ceia, instituiu-se a etiqueta à mesa ocidental. É sabido que na Idade Média a corte limpava as mãos nos cachorros que transitavam livremente pelo salão. E que, na Roma antiga, a etiqueta resumia-se a orgias pantagruélicas dos comensais reclinados em espreguiçadeiras recamadas a ouro.
Mas, hoje em dia, é muito mais fácil ter etiqueta ou, pelo menos, limpar os lábios em higiênicos guardanapos descartáveis . Mesmo assim, quantas de nós, mulheres, não casamos ainda, em pleno século 21, por uma toalha de linho na mesa? A etiqueta muitas vezes subverte as coisas, e faz esquecer, que tudo era mais simples, e o que se tinha em vista, era a utilidade e o comer sem melecar-se, o que pode ser até bom para a saúde de vez em quando.
As pessoas têm medo da etiqueta porque é muito revelador sentar-se a mesa com uma ou mais pessoas. Às vezes, qualquer gesto compromete. Como diz o filósofo, numa época em que se subvertem os costumes e tudo se esboroa, temos que, até por uma questão de sobrevivência, simplificar tudo, ser práticos. E é para quem corta a ostra com garfo e faca e toma a água da lavanda fazendo cara feia em seguida, que mando receita:
Alcachofras sem Mito
Compre 1 ou 2 alcachofras no mercado ou na feira (agora é a estação )
Corte um pedaço do cabo da flor e coloque a ferver em panela de pressão, cobrindo-a com água, gotas de molho de soja e uma pitada de sal. Por uns 20 minutos. Reserve um pouco do caldo. Coloque a alcachofra cozida num lindo prato grande. Tempere mais um pouco seu caldo reservado com limão, azeite, ervas. Vá despetalando o legume, molhando-o no caldinho temperado e mordendo com os dentes fechados para comer o creminho delicioso das pétalas. Escarafunche todo o talo atrás do mesmo creminho. Quando terminar toda a operação, lave a ponta dos dedos e os lábios na poção da lavanda. A lavanda é assunto para a semana que vem.
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Maria de Los Angeles é chef de cozinha do restaurante Paella Como te Gusta e colaboradora da Folha.

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