MOLHO - Comida e poesia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de março de 2004
Maria de Los Angeles<br> Especial para Folha 2 
''Girando e girando no giro que se amplia
O falcão não pode ouvir os falcoeiros;
As coisas se esboroam; o centro não se aguenta
A mera anarquia está solta no mundo,
A maré escura de sangue está solta, e em toda parte
A cerimônia da inocência se afogou.
Aos melhores falta convicção,
ao passo que os piores
estão cheios de apaixonada intensidade''. (W.B. Yeats)
Ser cozinheira e espanhola nestes tempos conturbados me impossibilita de não tomar partido, sempre muito apolítica que sou. O poeta da curta estrofe acima soube sintetizar, tudo que emocionalmente sinto atualmente. Esta semana inteira ouvi o noticiário, muda de perplexidade. Esta semana, acho um pouco banal (e me sinto até culpada) falar de receitas, gastronomia, etc. Para suavizar um pouco a vida e afastar a depressão que se abateu sobre o mundo, um doce especial e fácil de fazer.
Cocada preta perfumada
1 quilo de rapadura ou açúcar mascavo/ 4 paus de canela/ 4 cravos da Índia/
2 cocos de médios a grandes, ralados bem grosso (não precisa tirar a pelezinha exterior do coco, só a casca exterior).
Modo de fazer:Pique a rapadura em pedacinhos e leve ao fogo com a água. Se for o açúcar é só despejar na água, já com os temperos. Deixe ferver, retirando com a escumadeira a espuma que se forma. Retire os temperos em pau, misture o coco ralado, mexa bem e deixe ''apurar''. Isso que dizer que, deve ferver, em fogo baixo, até que a água se consuma e vire uma bola melequenta. Se quiser para comer de colher, é o momento de pôr na compoteira. Se quiser dura, faça assim: unte uma ou duas assadeiras de bom tamanho com manteiga sem economizar, colocando-as sobre os tabuleiros. Coloque-as ao sol para secarem. Se estiver chovendo, no forno levemente aquecido. Espere esfriar completamente. Retire-as delicadamente e guarde numa lata. Não precisa, Graças a Deus, de leite condensado para ficarem, mais que deliciosas. E, para quem me acha uma espanhola muito brasileira ou uma brasileira muito espanhola, respondo apenas que, agradeço muito ao imigrante meu pai, que nos trouxe para este país. Os espanhóis tem sangue bom ''y caliente'' , um coração enorme e muita arte. Igualzinho aos meus três filhos brasileiros. Buen Provecho!
Maria de Los Angeles é chef de cozinha do restaurante Paellla Como te Gusta e colaboradora da Folha.


