M.Officer promove o desfile dos excluídos na próxima edição do MorumbiFashion
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2000
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 12 (E) - A idéia de plutocracia é francamente abominável, mas o mundo fashion absorveu tão bem esse estado social que o acúmulo de riquezas parece ser o único objetivo dos donos de grifes, modelos e consumidores de moda. Foi pensando nisso que o proprietário da marca M.Officer, Carlos Miele, decidiu promover um desfile destinado a provocar escândalo no MorumbiFashion Brasil, que começa no dia 27 e vai até 31 de janeiro. Para lembrar que os excluídos sociais vão passar frio na próxima temporada de inverno, 30 modelos da M.Officer, inclusive a top curitibana Isabeli Fontana, vão desfilar no dia 27, a partir das 16h30, na antiga fábrica localizada atrás do MorumbiShopping.
Assim como o conceito do desfile, as roupas que elas vão mostrar constituem outra provocação. Algumas são feitas de tecidos à prova de balas e resistentes ao fogo, o que pode salvar uma vida num país onde adolescentes costumam queimar índios e mendigos na calada da noite. Miele pensou em distribuir algumas dessas roupas antiinflamáveis aos sem-teto, mas acredita no poder de influência da M.Officer sobre o público jovem, que poderá participar dessa campanha de promoção dos excluídos comprando e doando essas roupas aos moradores de rua. Cinismo? Nem pensar. Isso, em filosofia, se chama pancelismo, termo criado por Baldwin e que concebe o belo como norma categórica. Segundo sua filosofia, até a realidade pode ser organizada sob a forma estética. Por que não? Ação social - Miele também acredita que o mundo fashion não seja só uma feira de vaidades. Recentemente bancou a reforma da ala pediátrica da Santa Casa de São Paulo e pretende criar uma fundação para promover nossos deserdados sociais. "Não organizo desfiles para mostrar tendências de moda, mas para fazer o público pensar", diz, observando que o desfile do MorumbiFashion faz parte de uma performance chamada "Os Redundantes e as Elites das Cavernas".
Não, não é o nome de um novo grupo punk. É o título que traduz o conceito de um programa mais amplo, que prevê a realização de um vídeo com música ao vivo de Hermeto Paschoal e comentários de outros excluídos do mundo da moda, entre eles a mulher que introduziu a impressão em braile no Brasil, Dorina Nowill. Aos 80 anos, a presidente da fundação que leva seu nome, cega desde os 18, vai mostrar como consegue ser elegante mesmo sem ver o que está vestindo. Corpos ardentes - A nova coleção da M.Officer foi pensada para corpos sensuais em movimento. As roupas são feitas de penugem sintética ou tecidos transgênicos com fibra ótica. Brilham no escuro e têm memória, adaptando-se ao corpo da modelo. Abusam das formas geométricas do construtivismo russo, das cores berrantes (vemelho, púrpura), dos sequins e dos decotes generosos que deixam ver o que o restou de tecido cortado pelo laser.
Essas conquistas tecnológicas a serviço do design não significam nada sem uma mudança de comportamento, alerta Miele, que vai operar uma das oito câmeras de vídeo durante a performance-desfile. "O que eu pretendo é, antes de tudo, despertar a atenção para o uso da tecnologia numa época em que voltamos às cavernas", observa o diretor da M.Officer. Isso explica a junção do termo "redundantes", que marca o advento da sociedade industrial, à caverna platônica, usada como metáfora da cegueira social nesta época de globalização, em que quase todo mundo parece ter dificuldade para enxergar o outro, o semelhante.
"O redundante era considerado o excesso nos primórdios da sociedade industrial e, como no Brasil pode tudo, menos a justiça social, resolvi aproveitar a ocasião para forçar uma reflexão sobre o achatamento dos excluídos", explica. "Decidi, enfim, promover um desfile para pensar o outro", explica Miele. Isso explica a segunda parte do título da performance-desfile, a metáfora da caverna platônica. Sombras internéticas - Como se sabe, Platão traçou uma analogia entre a alma presa ao corpo e um prisioneiro na caverna, de costas voltadas para a luz e vendo a realidade apenas como sombras projetadas nas paredes. Miele acha que o homem contemporâneo, preso à realidade virtual do computador, sofre da mesma limitação. Só vê a sombra de seu semelhante na Internet, perdendo o contato com as pessoas reais. Daí sua resistência em vender os produtos da M.Officer pela rede.
Outra metáfora clássica é a do fogo de Prometeu, a chama do conhecimento transmitida aos humanos com o sacrifício do mesmo. No desfile, o modelo Ranimiro Lotufo, que usa uma perna mecânica, vai queimar um terno em protesto contra a ditadura do "homem elegante", que oprime seus semelhantes com uma peça de vestuário em nada compatível com o verão tropical. Barrado no banco - O próprio Miele já foi barrado na entrada de um banco por estar usando bermudas, e não paletó, num dia quente de verão. Como protesto, ele organizou, em outubro de 1998, na Casa das Rosas, uma performance em homenagem ao artista plástico Flávio de Carvalho, que passeou de saiote pelas ruas de São Paulo em 1955. Ele escandalizou os paulistanos com seu modelito para provar que o traje era mesmo funcional.
Um condutor de bonde não só aprovou o saiote como jurou que usaria se a moda "pegasse". Meio século depois, a moda não pegou. Prova disso, segundo Miele, é que esses jovens que queimam índios e atacam mendigos de rua "querem apagar aqueles que eles julgam fracassados, com medo de ser, no futuro, os excluídos que eles vêem no presente". Fiel ao princípio da performance povera, Hermeto Paschoal não vai entrar com nenhum instrumento convencional no desfile da M.Officer.
O compositor e seis músicos de seu grupo deverão usar chaleiras, tamancos, bichinhos de camelô e tubos de plástico na performance, acompanhados pela bela modelo curitibana Isabeli Fontana, de 16 anos, que você vê todos os dias nos outdoors espalhados pela cidade. Ela vai "tocar" uma máquina de costura acompanhada pelo grupo de Hermeto Paschoal. Convidados especiais - A top model Ana Cláudia Michels não vai participar do desfile. Catarinense de Joinville, a modelo aos 18 anos é a capa da "Vogue" italiana de janeiro e está de malas prontas para Londres, seguindo a trilha da disputada gaúcha Gisele Bundchen. Os convidados de honra do desfile não serão os jornalistas especializados em moda. Na primeira fila vão estar crianças com câncer, em tratamento quimioterápico. "Desfile não é chá beneficente", justifica Miele.
"É preciso ter uma preocupação ética com os excluídos, e não pensar só na estética", recomenda, lembrando o exemplo do artista alemão Joseph Beuys, que, convidado pela Documenta de Kassel, a principal mostra de arte do mundo, apresentou há alguns anos um projeto de obra que consistia no plantio de árvores na pequena cidade alemã. "É preciso pensar no outro para que nossa transformação interna ajude a mudar o mundo", observa.
Miele sabe que vai enfrentar reações dos concorrentes, mas, aparentemente, não se importa. "Chamei o Hermeto para fazer a música também porque ele é um excluído, que as rádios não tocam e as gravadoras evitam", continua, acenando com a possibilidade de registrar o inaudito som "fashion" de Paschoal num dos próximos lançamentos do selo M.Officer. Grupo de filiação - O empresário, que já trabalhou ao lado do músico Carlinhos Brown, dos artistas plásticos Tunga, Cabelo e Nelson Leirner, do videomaker Arthur Omar e do arquiteto Paulo Mendes da Rocha diz que Hermeto foi o artista com o qual teve o diálogo mais fácil até hoje. "Para ele, tudo é som, tudo é arte", define. "É o artista menos preconceituoso que conheço".
Essa atitude coincide com a abertura da M.Officer para outras áreas além da moda. Miele, que lança no dia 18 um livro de fotografias pela editora Cosac & Naify, deve fazer brevemente sua primeira exposição individual de fotos numa galeria de São Paulo, absorvendo idéias de todos os artistas com os quais trabalhou em desfiles e produzindo, por exemplo, uma revolucionária poltrona que o arquiteto Paulo Mendes da Rocha desenhou em 1957 para o Clube Paulistano.
Em contrapartida, ele convenceu o criador do MuBE a fazer sua primeira experiência como desenhista de moda, ao assinar, no ano passado, um vestido longo para a grife de Miele. "O problema da moda é o pessoal da moda, que vive dentro de uma realidade burocrática", critica. "A moda pode dar a opção de autonomia ao indivíduo, mas isso não acontece quando se nega o design dos excluídos", lembra Miele. Por causa disso, ele vai terminar seu desfile com todo mundo vestido de preto. "Não vai ter festa, não, porque estamos de luto", justifica. "A queima do terno, uma vestimenta que herdamos de fora e hoje serve para excluir, é simbólica, mas a roupa à prova de fogo que vamos mostrar é um artefato real que iguala o agressor e a vítima de agressões letais na caverna moderna", conclui.


