Modernidade em construção
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de fevereiro de 2010
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Até que ponto as políticas públicas relacionadas à cultura podem influenciar a produção artística de uma cidade? Intrigado com a questão, o músico Ulisses Galetto não poupou esforços e mergulhou fundo na pesquisa. O resultado foi uma tese de mestrado, que, adaptada, transformou-se no livro ''A Modernidade em Construção - Políticas públicas e produção de música popular em Curitiba - de 1971 a 1983''. Publicado pela editora especializada AnaBlume, a edição é resultado do Prêmio Funarte de Pesquisa em Arte de 2008. Galetto foi o único representante da Região Sul a conquistar a premiação, que viabilizou a publicação.
Para fazer a pesquisa, o autor revirou os arquivos da Fundação Cultural de Curitiba, do Teatro Guaíra e os arquivos pessoais do jornalista cultural Aramis Millarch, que deixou um vasto legado cultural. ''Muitas fontes eram inéditas'', conta o músico. Um dos fundadores do Grupo Fato, que há mais de uma década pesquisa sonoridades diversificadas no Paraná, Galetto também analisa na obra a presença (ou ausência) da participação de artistas curitibanos no cenário nacional da música. Essa relação intrínseca com a música ajudou, claro, o autor a se ambientar com o tema proposto no livro.
O período retratado por ele, tampouco, não foi escolhido ao acaso. Por estar presente na cena cultural, Galetto sabe que as datas pesquisadas coincidem com uma mudança radical no cenário paranaense. ''Foi um período em que Curitiba saiu do anonimato em relação às políticas públicas'', lembra. Para citar alguns exemplos presentes no livro, foi nessa época que aconteceu a inauguração do Teatro Paiol (1971), com show de Toquinho e Vinicius de Moraes, a criação da Fundação Cultural de Curitiba (1973) e de outros espaços públicos que viriam a ser fundamentais no desenvolvimento da cultura da capital, como a Cinemateca, o Teatro Universitário (TUC), o Teatro do Piá e a Casa da Memória. ''Não podemos negar que boa parte dos equipamentos públicos presentes na cidade foram criados nestes 12 anos abordados no livro'', diz.
Galetto aproveita o estudo para fazer um contraponto com os dias atuais. ''Acho que os produtores artísticos tem tendência de buscar responsáveis para a marginalidade. Se tivessemos mesmo que buscar um culpado, certamente não seria o poder público'', conta. Para ele, pelo menos nos anos retratados, o poder público fez o ''dever de casa''.
O período, ele enfatiza, foi o grande divisor de águas na política pública da capital, mas não se pode ignorar os anos seguintes. Foi na década de 90, por exemplo, que foi apresentada e sancionada a Lei Municipal de Incentivo à Cultura, que definitivamente mudou o formato de pensar e produzir projetos culturais na cidade. Mas isso é uma outra história, que o autor já começa a pesquisar para a sua tese de doutorado. A obra, provavelmente, também será publicada.


