O dono da etiqueta M.Officer, Carlos Miele, é um empresário às avessas se tomar-se como modelo a figura do empresário tradicional, aquele que só vê cifrão à sua frente. Preocupado com a distância abissal entre elite e miseráveis estes cada vez mais numerosos , ele faz sua parte na tentativa de minimizar a dor e o desespero. Trabalha com costureiras da Rocinha (a maior favela do Rio de Janeiro), montou um hospital infantil em São Paulo, e em Belo Horizonte desenvolve um projeto de atendimento a menores infratores
Não é um carnê social que se paga para ter a mente em paz. Há uma angústia constante ''natural da minha geração'', diz o moço que se nega a ter ilusão de um futuro melhor para a humanidade. Para ele toda esperança é utópica. ''Particularmente não vejo muito futuro para o homem. Como espécie ele não dura muito tempo''.
Estilista e empresário bem sucedido, Miéle circula na roda-viva pontuada pelas capitais de São Paulo, Rio e Londres, e ainda encontra tempo para a arte. Enquanto montava a exposição ''Os Redundantes e as Elites das Cavernas'', que abre esta noite no Museu Metropolitano de Arte, em Curitiba, dispensou um momento para conversar com a Folha 2.

''Os Redundantes e as Elites das Cavernas'': você poderia falar sobre a razão desse título?
Os ''redundantes'' é porque era um termo utilizado na revolução industrial. Foi ali que começou um grande movimento de excluir as pessoas, era usado para os trabalhadores que eram descartáveis. Era redundante ter esse trabalhador na fábrica uma vez que ele não tinha mais função. Então peguei esse termo da revolução industrial. ''Elites da caverna'' porque estamos cada vez mais nos fechando, nos blindando em nossos condomínios, restaurantes, fechados em nossos carros. Então é essa volta às cavernas que ao mesmo tempo remete à questão primitiva do homem. Ele evoluiu cientificamente, mas psicologicamente as questões continuam sendo primitivas. A crueldade humana continua tão forte como sempre foi.

A dor disso tudo reflete no seu trabalho?
Tem uma coisa de angústia, que é natural da minha geração. É uma geração que chegou a estudar as utopias, mas já pegamos o final delas. Tinha aquela coisa de que o comunismo, o marxismo eram inviáveis, mas a gente não consegue ver no sistema atual do capitalismo algo que possa trazer uma solução para o mundo. Fica uma geração que não tem sonhos, não consegue imaginar um futuro melhor para a humanidade. Essa angústia faz parte da minha geração.

Existe uma saída?
Não acredito, apesar de que algumas pessoas quando vêem o vídeo Roberto Carlos Ramos, sinalizam como uma saída que eu propus. A história dele é interessante: uma psicóloga francesa veio estudar a Febem e acabou adotando-o. Ele era o campeão de fugas da instituição, não tinha nenhuma chance de recuperação. Ela o recuperou e hoje ele é um grande pedagogo e uma pessoa útil para a sociedade. Talvez tenha um pouco de esperança, mas esperança utópica. Quantas pessoas vão ser igual a essa francesa e quantos meninos terão essa chance e vão aproveitá-la como o Roberto Carlos Ramos aproveitou? Então, ao mesmo tempo que mostra uma esperança, para mim estatisticamente ela pára na hora em que você começa a ver o que está acontecendo no planeta.
A falta de diálogo entre os dois mundos, das elites e dos excluídos, vai inviabilizar toda convivência.

Quanto maior a distância, maior a tragédia. Pode-se dizer que você está fazendo a sua parte para uma aproximação?
Tento não ficar restrito às questões da arte, da moda porque elas também são expressões voltadas às elites. Então quero que meus projetos tenham também participação na vida. Junto com Roberto Carlos Ramos estou tentando desenvolver um sistema educacional só para crianças dadas como irrecuperáveis, como ele foi um dia. Tenho um trabalho grande com a Rocinha, onde utilizo artesanatos brasileiros que estão se perdendo com a globalização. Tento manter vivo o artesanato brasileiro e ao mesmo tempo utilizo restos da minha produção, coisas que seriam jogadas fora e dou trabalho para mães de famílias. É comum nessas famílias o pai ir embora, então a mulher tem que sair de casa para criar os filhos e estes ficam a mercê dos marginais. Nossa idéia é manter as mães dentro de seus lares trabalhando. Em São Paulo montei um hospital junto com a Santa Casa, onde funciona a pediatria infantil. Hoje atendemos mais de 15 mil crianças gratuitamente todo mês. Agora comprei um equipamento neurológico; os médicos disseram que nem hospital particular tem aquele equipamento. Esse trabalho é muito legal porque atende mais do que o Hospital das Clínicas, que é do governo.

A arte passa pela criação de moda? Onde se cruzam os caminhos?
Na minha concepção arte é uma criação de idéia. Um exemplo é o Bispo do Rosário, que utilizava linhas e restos de suas roupas. Então é uma questão de idéia, não é uma questão de meio. Você pode produzí-la na Internet, com um objeto que catou na rua... Já a moda quando tem objetivo de venda é um produto comercial. Quando você pensa uma roupa conceitualmente, e só tem uma discussão de idéia sobre ela, é um trabalho artístico.

Com todo esse humanismo, como você se relaciona com o mundo charmoso da moda, dos desfiles, das ricas mulheres?
Pensando na função da moda como geradora de emprego e como geradora de idéias e comportamento, acho que ela é muito importante. Você vê que as roupas são na maioria das vezes tudo o que as pessoas têm para se expressarem. São poucas as que escrevem, fazem vídeo, fotos, pintura. A grande maioria tem um cotidiano de vida muito cruel e sem grande imaginação. Talvez escolher a sua roupa seja o único momento em que a pessoa esteja se expressando. Agora, tirando essas funções da moda, infelizmente é um trabalho de elite também. Assim como a arte. Mas uma elite até mais limitada do que a da arte, porque pelo menos naquela se envolvem os intelectuais. Eu tento provocar discussões. Por exemplo, coloquei um modelo na passarela que tinha perna mecânica, e levantei uma discussão de que aquilo era coisa de mau gosto. Para mim mau gosto é as pessoas acharem que deficiente físico tem que ficar trancado em casa. Fiz uma campanha de outdoor. Um ano depois um criador inglês fez em Londres e foi aclamado. A grande parte da crítica brasileira achou aquilo um absurdo, e um ano depois a crítica mundial achou aquilo maravilhoso.

Você é uma pessoa dotada de preocupação social e ao mesmo tempo obtém sucesso e dinheiro. Você se sente feliz?
Não. Eu me sinto muito angustiado, como reflete o meu trabalho. Não consigo ficar anestesiado a tudo isso que está em volta, a vida caótica de São Paulo. Não consigo achar normal a televisão tratar dos assuntos sociais com tamanha superficialidade. Quando vão falar de uma fuga da Febem mostram aquelas crianças como se fossem animais, e para quem está assistindo fica aquela coisa do tipo ''ah, eles merecem mesmo ser exterminados''. Não conseguem nunca se aprofundar no assunto, porque a mídia hoje está nas mãos dos grandes conglomerados, os interesses deles são as grandes multinacionais. Se na época da colonização era terrível porque a gente ficava na mão de outros países, na era da globalização é pior porque ficamos nas mãos de grandes empresas econômicas.

E a sua empresa, como está? Há projetos a serem desenvolvidos?
Nós estamos expandindo. Falo nós porque é uma equipe, hoje eu só cuido da parte de criação. Meu primeiro desfile em Londres foi muito bem recebido, considerado o melhor. Isso me deu a responsabilidade de fazer o segundo para confirmar a expectativa que os críticos ingleses têm no meu trabalho. A partir de Londres estou começando a expandir: Estados Unidos, França, Hong Kong. Também estou vendendo na Itália. Pretendo atingir outros mercados como Alemanha e Suíça. Com esse sucesso todo espero reverter socialmente, culturalmente para o meu País. Porisso que no meu trabalho busco minha identidade brasileira e minhas raízes na cultura popular brasileira, que na minha opinião é a mais rica do mundo.

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