Curitiba - O Curitiba Fashion Art acabou sábado à noite. O evento de moda tem tudo para se consolidar como o mais importante que o Estado já produziu até agora. Os veteranos estilistas Jean Pierre Lobo e Jeferson Kulig e mais o estreante César Moretti traçaram um panorama bastante real sobre o que é moda hoje no Paraná.
A primeira apresentação foi a de Jean Pierre. Curitibano, há anos dono de uma loja na cidade onde vende suas próprias criações, o designer traz em suas roupas uma característica singular e rara para os dias de hoje: é dele a concepção total de suas roupas. Isso de cara já dá ao seu trabalho um valor a mais.
A coleção que mostrou no sábado tinha nos games a base para seus desenvolvimentos. Uma produção original, com um grande ventilador na boca de cena e uma trilha sonora combinando com o tema, o estilista soube mostrar que não está querendo agradar todo mundo e sim uma clientela específica que, certamente já usa suas roupas há um bom tempo.
''Lembro do Jean Pierre desenhando quando éramos piás'', dizia empolgado o chef curitibano Flávio Frenkel que abandonou as caçarolas de seu restaurante Blini para prestigiar o velho conhecido.
Os modelos surgiram com capacetes escondendo suas faces. Homens e mulheres com calças jeans bem recortadas, ar samurai, perceptível mas não caricato e camisetas silkadas com os dizeres ''sick generation'', uma grande sacada conceitual do estilista.
Os melhores momentos da apresentação foram as alfaiatarias dos ternos masculinos e os vestidos de tafetá com fendas enormes dos lados. Bem recortados, com caimento perfeito JPL apresentou mais opção para quem precisa usar trajes comportados sem perder o ar moderno. Suas roupas saem do sportwear por alguns instantes e mostram que tem potencial para isso. Em grande parte das peças a presença de fivelas dá uma marca ao trabalho do criador que tem como assistente a designer de modas Juliana Hess.
O segundo desfile da noite trouxe o esperado trabalho de César Moretti ao Curitiba Fashion Art. Vinte e poucos anos e uma veia pulsante para a criação, Moretti apresentou-se como quem já sabe pisar em passarelas internacionais. O militarismo, presente em quase todas as coleções do momento, foi usado pelo estilista com uma análise própria. Quepes e mais quepes fazendo vezes de bolsos, virando bolsas e até pochetes. Brincadeira séria nos tricôs com estamparia desenvolvida por ele. Macacões, saias lápis, curtas e muitas calças cargo.
Moderno, Moretti agradou a todos. Recebeu um cartão do produtor do Second Floor da Ellus de São Paulo. A marca da Oscar Freire quer mostrar o trabalho de novos estilistas brasileiros na capital paulista e já está recebendo pedidos de lojas multimarcas curitibanas que querem começar a vender lá suas peças. Talvez a melhor definição do trabalho de Moretti seja o emocionado depoimento de um conceituado produtor de moda local: ''achei ele parecido com uma linha Helmut Lang. Fiquei arrepiado''.
Moretti já está aproveitando o efeito do evento para fazer negócios no Paraná. Sem recursos, para bancar uma produção independente, Moretti fechou parceria com a malharia Resulthado, de Elon Marcos Ferreira, licenciando a marca. A malharia vai comercializar peças do estilista. Desde sábado, já foram produzidas cerca de mil peças.
Quando a segunda grife de Jefferson Kulig, a Vooss, entrou para fechar a semana de desfiles na passarela do Cietep, o público silenciou. O discreto estilista propôs um passeio pelas ciclovias curitibanas aliando o seu famoso tricô a linhas simplistas. Revisitou os ternos, propondo um encontro mais casual com a roupa. Conseguiu. Tudo que Kulig faz é perfeito.
O estilista finalizou o evento mostrando que não está querendo chocar ninguém nem com atitudes, nem com roupas que não funcionem. Com sua visão criativa, Kulig não gosta de propor peças espafalhatosas que não tenham utilidade. Sua marca vende bem em Curitiba, e ele sabe o que o público quer. Seus cortes traduzem bem a realidade de seu espírito livre. Ele cria o que acha melhor, e não se preocupa em arrancar suspiros de leigos. O que quer é fazer roupa perfeita. E isso ele já fazia bem antes de se pensar em um evento como o Curitiba Fashion Art.

mockup