No inverno que vem aí, a feminilidade passa, necessariamente, por uma lingerie poderosa (e à mostra), mas não se limita a exibicionismos. Pode ficar ainda mais evidente em um terno de apelo masculino, arrematado por uma delicada flor na lapela. O visual andrógino esteve em alta, anteontem, no segundo dia de desfiles do Fashion Rio.
A tendência apareceu nas padronagens da Permanente, segunda grife de Andrea Saletto, que explorou o contraste entre masculino e feminino criando calças retas de bolsos quadrados, saias com pregas, casaquinhos acinturados e delicados vestidos de georgete. O trench-coat é peça chave no irrepreensível inverno da marca.
Já Mara Mac apostou todas as fichas na androginia, revisitando clássicos da alfaiaria, como coletes, suspensórios e sapatos bicolores. Santos Dumont é a inspiração para os looks pinçados dos glamourosos anos 30. Tweed e risca-de-giz surgem coordenados com ótimas camisas de mangas e golas diferenciadas. Entre os acessórios, bolsas em croco e botas de tricô com elastano. Echarpes esvoaçantes pontuam com leveza ternos e mantôs.
Menos tecido e mais ousadia foi o lema da Tessuti. Abusando da idéia de transformar peças íntimas em roupas urbanas, a estilista carioca Clara Vasconcelos explorou o universo dos corselets, camisolas e sutiãs em tons neutros e acinzentados. Somente para as poderosas.
Os básicos de inverno ganharam uma leitura cosmopolita da paulistana TNG. Assinada pelo estilista Caio Gobbi, a coleção tem mais apelo comercial mas, nem por isso, menos looks interessantes. O jeanswear feminino ganha fôlego com uma linguagem masculina e lavagens desgastadas, os sapatos de bico arredondado se somam aos escarpins e os vestidos surgem ora comportados, em tweed linha A, ora exibidos, em seda esvoaçante. Maxipulls, jaquetinhas de matelassê e saias de lã transpassadas são outras apostas. Na estamparia, a flor da vez é a orquídea. O jeans aparece também nas bolsas e nos coturnos.
Tendências e boas propostas à parte, se fosse preciso eleger a melhor coleção da noite, cariocas e paulistanos estariam fora do páreo. O título certamente ficaria com a mineira Liliane Rebehy Queiroz, da Coven, que mais uma vez surpreendeu ao mostrar o que é capaz de fazer com o tricô. Construindo tramas como vitrais, ela esculpe libélulas, borboletas e abelhas coloridas ou sutilmente brilhantes. As formas são desconstruídas (blusas amarradas viram saias) e fazem referências aos anos 20. De tirar o fôlego. Deslumbramento que, segundo ela, também esteve presente na hora de criar. ''Blame it on Rio'' justifica a estilista, nomeando a coleção.
A jornalista Rosângela Vale viajou a convite da organização do Fashion Rio.

mockup