Depois de um final de semana beirando os 30 graus, a segunda-feira começou cedo para os fashionistas na semana de lançamentos do verão 2005 no Rio de Janeiro. Tudo por conta da instalação, montada de manhã, pela paulistana Karlla Giroto no Jardim Copacabana, no MAM. Deitadas em camas compridas, com perucas brancas, luvas vermelhas e pomposas roupas coloridas, quatro modelos tinham o sono velado por um garoto com pinta de príncipe e despertador na mão. Ao lado da cama, sapatos ''presos'' em gaiolas completavam a atmosfera onírica da instalação.
Considerada um dos nomes mais promissores da nova geração de criadores nacionais, Karlla revela que não quer ficar restrita à turminha cult da moda. ''Participar do Fashion Business já revela um novo direcionamento da marca'', diz, referindo-se à rodada de negócios que começou ontem. Pé no chão, aliás, é uma das leis da temporada. De olho no mercado nada animador, as grifes que se apresentaram no evento desde sexta-feira foram direto ao ponto, mostrando coleções fáceis de ser digeridas. Mas, nem por isso, menos interessantes.
Saudosos da época em que a frente-única e a cintura de pilão eram ícones de sensualidade, vários estilistas reeditaram as formas dos anos 50. E foram buscar inspiração nos balneários chiques da época. Marco Maia e Luciano Canale, da Santa Ephigênia, citaram a ilha de Paquetá, criando estampas de cartões postais e bolsinhas em forma de peixe. Já a Tessuti falou de Capri e Saint Tropez, misturando linho e seda com maestria. A Mara Mac para Mariazinha lembrou Hitchcock, com gaivotas no cenário e nas estampas, um casting só de loiras e muitas calças Capri, listras de marinheiro e saias amplas de cintura alta.
Para a mineira Graça Ottoni, feminilidade é sinônimo de bordados multicoloridos e exuberantes patchworks de seda. Com uma cartela de cores que homenageia as raças brasileiras e as festas populares do país e um delicado trabalho artesanal ela fez uma belíssima tradução fashion da temática da miscigenação, ao contrário do paulista Walter Rodrigues, que se perdeu nas sobreposições e nos volumes, acertando apenas nos vestidos brancos de crochê.
A boa surpresa ficou por conta da estreante Patrícia Vieira, veterana nas vitrines internacionais e especialista em couro. Liso, perfurado, bordado e colorido, o material transmuta-se nas suas mãos, lembrando, muitas vezes, a fluidez da seda. Leveza também é a tônica de Guilherme Mata, da grife MvsM, que dá continuidade aos origamis de cata-vento já trabalhados na coleção anterior. Destaque para as saias ricamente construídas com tiras de tecido.
Nas passarelas que anteciparam a moda das areias, não faltaram candidatos a bossas de verão. A Salinas sugere morangos, borboletas, ''pois'', golfinhos, listras e broches de flores. Tudo no maior clima zen, com direito à apresentação dos baianos ''Filhos de Gandhi'' no grand finale. Já a Blue Man evoca as cores da badalada artista carioca Beatriz Milhazes. E inventa moda: biquínis sobrepostos (pode ser só a calcinha, só o sutiã ou ambos).
No quesito celebridades, esporte e rock'n roll determinaram o casting. A catarinense Colcci trouxe Liz Jagger (filha do mais famoso Rolling Stones) para mostrar a uma moda jovem baseada em vestidos estampados, bordados e sobrepostos a Capris jeans. E a paulistana TNG convidou as triatletas Fernanda Keller e Daniela Cicarelli para ilustrar o sportswear chique da marca. O frisson maior, entretanto, ficou por conta da presença, na platéia, do jogador Ronaldo, que literalmente roubou a cena ao sair, minutos antes do desfile acabar, causando uma debandada geral de fotógrafos. Desde já, uma das cenas mais engraçadas da temporada.
A jornalista Rosângela Vale viajou a convite da organização da Fashion Rio.

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