Lá pelas tantas da noite, na volta do prédio da Bienal para o hotel que hospeda a imprensa nacional, a conversa dos jornalistas - que passaram o dia inteiro vendo desfiles - é quase sempre uma só: desfiles. Na quinta-feira, após a participação estrelada da modelo Daniella Cicarelli para Ellus, esperava-se que a noiva de Ronaldo seria o assunto mais badalado. Até que não foi tanto assim, já que no balanço final, a coleção da Zoomp acabou virando tema do papo de van.
Tudo começou porque uma jornalista carioca queria saber o nome do estilista que assinava o estilo da marca. Pois é o londrinense Henry Alavez, que recebeu os aplausos da platéia ao lado do empresário Renato Kherlakian. Com um outono-inverno inspirado nas asas dos insetos, a grife paulistana aposta nos volumes das mangas e no furta-cor dos paetês. O inusitado fica por conta do moletom, que na versão 2005 ganha modelagem de calças jeans e não fica tão largo como manda o original abrigo. O cinza mescla é cor-chave ao lado do grafite e dos azuis-esverdeados.
Fã incondicional de ciência e tecnologia, o curitibano Jefferson Kulig sempre dá um jeito de aliar suas criações à alguma teoria. Na passarela, o conceitual está, a cada temporada, cedendo mais espaço ao comercial. A idéia de criar uma nova superfície para o corpo, como lembra seu material de imprensa, não chega a ser estabelecida explicitamente, já que casacos e bermudas seguem mesmo a modelagem de alfaiataria.
Biquínis de inverno? Para a Rosa Chá, não há tempo fechado. E sempre é tempo para mostrar um dos carros-chefe do Brasil no exterior (vender mundo afora é o sonho de 10 entre 10 grifes), a moda praia. A coleção chega meio aeróbica, inspirada nas roupas de ginástica de uma época (anos 1980) coloridíssima. Como a grife de Amir Slama há muito tempo deixou de mostrar apenas maiôs e biquínis, as saias rodadas de patchwork e bordados surgem como opção para momentos em que água e sol não são os astros principais.
Meio hippie, meio folk, Daniella Cicarelli surgiu abrindo o desfile da Ellus, que para a próxima estação elegeu a mistura como palavra de ordem. A saia de georgete são várias cores ao mesmo tempo, claro que sem fugir da cartela de tons esverdeados, marrons e uva. Os pescoços trazem sempre muitos adereços lembrando o espírito cigano. O tricô vem tanto na trama artesanal, quanto no jacquard de larga escala, próprio para combinar com todas as peças da coleção. O jeans da vez é o novo flexmove com Lycra, o lançamento da grife para o inverno, de toque muito mais macio.
No único desfile masculino do dia, Fause Haten desconstrói o smoking e os garotos usam gravatas borboletas desabotoadas. Ana Hickmann fez participação especialíssima desfilando de paletó.
Não dá para esquecer que hoje tem mais paranaense nas passarelas da São Paulo Fashion Week. Apesar de estar radicada em São Paulo há anos, vez ou outra, a procopense retorna à terra natal para rever a família. O desfile de hoje marca a estréia de Érika na semana de moda paulistana, considerada o maior evento do setor da América Latina.
Criações de um casal - Glória Coelho e Reinaldo Lourenço formam o casal fashion do Brasil. Tanto criam moda, que há 14 anos tiveram um rebento, Pedro, que por sua vez também é um criador de moda. Na quinta-feira, Pedro fez um desfile para cerca de apenas 60 pessoas. Apesar de não ter sido o primeiro desfile do jovem estilista, foi a primeira vez que ele se apresentou com grife própria - antes desenhava para Carlota Joakina, segunda marca da sua mãe.
Ontem, foi a vez dos pais se apresentarem na São Paulo Fashion Week. O casal abriu o terceiro dia de desfiles da SPFW. Primeiro Glória, em seguida, Reinaldo. Se foi uma correria para os jornalistas que cobrem o evento (o segundo desfile aconteceu do outro lado da cidade), imagina para a família Coelho Lourenço? Acabou que um não assistiu ao desfile do outro, mas cada um vai ter uma boa desculpa ao chegar em casa.
Para Glória Coelho, um urso grande de veludo se transforma em imagem da coleção. Tanto no cachecol como no aplique do vestido. Lindo o casaco de corte impecável e detalhes em couro. O capuz é o sinal de uma viagem pelos tempos medievais, mas sem perder o bonde da modernidade, já que modelo veste shorts e botas tipo sete léguas.
No salão cultural da Fundação Armando Álvares Penteado, Reinaldo Lourenço se inspira em óperas famosas, mas é impossível não fazer a relação com um sucesso cinematográfico: ''E o vento levou...'' Isso porque os vestidos da metade final do desfile são de veludo e têm pingentes. É o luxo inventado por Scarlet Ohara que transformou uma cortina em vestido.

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