MODA - O vôo de Icarius em Milão
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 2003
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Uma moda para todas as mulheres do mundo. É com essa conduta que o estilista Icarius de Menezes, 27 anos, vive há mais de dois anos no circuito da moda internacional. Primeiro foi Paris. Lá o criador conheceu um pequeno grande mundo de vaidades, poder e dinheiro. Gostou e arriscou um pouco mais. Eleito por um concurso da Vogue Itália como um jovem talento, o curitibano está há um ano em Milão. Fez sua estréia em março com a marca homônima e acabou se envolvendo num projeto mais audacioso: o de devolver ao templo das grandes grifes a Lancetti, tradicional marca italiana que ficou um tempo fora de órbita, mas que já vestiu musas como Iman, (atual mulher de David Bowie) e a magnífica atriz italiana Gina Lolobrigida.
Semana passada aconteceu sua estréia nas passarelas como diretor de criação da Lancetti. Aclamado pela imprensa e também pela ala feminina italiana que o vê também como um sexy-stylist, o curitibano aproveita para respirar o ar do sucesso que sopra atualmente em sua vida.
E foi para falar da transição de sua marca Icarius para a Lancetti e sobre a repercussão do desfile de estréia, em Milão, que o estilista concedeu uma entrevista exclusiva à Folha.
Como aconteceu a transição para a Lancetti?
Depois de apresentar minha última coleção no calendário de moda italiana, convidado pela Vogue Itália (Vogue havia escolhido cinco novos designers para desfilar em Milão, entre outros Zac Posen), no início deste ano, eu voltaria para Paris. O encontro com a Lancetti, se deu a partir de jornalistas que sugeriram meu nome, por conhecerem minhas coleções de Paris. Eles falavam de algo muito ''Lancetti'' em minhas criações. Foi aí que tudo aconteceu. Só voltei para Paris dois meses depois de ter feito o desfile em Milão e hoje moro na Itália full time. Sou exclusivo da Lancetti como diretor criativo. Recebi a responsabilidade, além do prêt-à-porter, de desenvolver os acessórios, sapatos, bolsas, óculos e também pelo perfume Lancetti, que será relançado com campanha mundial nos próximos meses. Toda a nova imagem da marca está sob minha responsabilidade. É claro que tenho um time fantástico que trabalha comigo, tanto no marketing, como no produto.
Você recebeu alguma idéia pré-concebida da coleção que apresentou semana passada?
Recebi total liberdade e um arquivo incrível. Pino Lancetti era uma espécie de Denner para se entender melhor... Tive acesso a um arquivo de alta-costura... Um clipping de mais de 30 anos de trabalho. Artigos e editoriais maravilhosos. Sua musa era Iman, a atual mulher de David Bowie. Havia em seus desfiles as grandes modelos do passado: Jerry Hall, Weruska, Patt Cleveland e as brasileiras Betty Lago, Dalma Calado, uma das favoritas de Pino Lancetti. Lancetti era um criativo, um gênio das cores, e das estampas. Os tecidos Lancetti movimentaram o setor têxtil nos anos 70 e 80. Lancetti teve dez capas de Vogue Itália. Sua última coleção, no início dos anos 90, foi clicada por Steven Meisel, com Linda Evangelista. Uma fantástica linha de perfumes e cosméticos que marcaram toda uma geração italiana. Todo esse universo de glamour, feminilidade e riqueza me inspiraram para fazer a nova coleção Lancetti.
Em que momento você percebeu que era importante ligar seu nome a uma grande marca?
No momento em que percebi que a marca Icarius havia crescido muito, porém meu staff continuava pequeno. Mas, como te disse na primeira pergunta, aconteceu. Não foi algo programado. Trabalhar com uma estrutura de uma empresa já consolidada é fascinante...E este é o futuro certo para o novo designer...Icarius hoje é Lancetti e vice-versa. Faço como fazia minha coleção.
Como é trabalhar com uma equipe italiana, país onde a moda é referência mundial?
Fantástico. Trabalhava antes entre Paris e Bruxelas. E não troco a Itália por nada. Primeiro, porque é culturalmente muito próxima do Brasil e a cultura de moda está impregnada nas pessoas. Você fala de moda com um taxista. É como futebol no Brasil, os estilistas são ídolos, as idéias de uma coleção (se boas) são respeitadas, tornam-se regras. Vestir-se bem é cultural.
O fato de você ser brasileiro pesa em que contexto? O da sensualidade?
Os italianos são muito italianos. Porém existe uma característica interessante nesse povo. Eles adoram estrangeiros! Na tevê, no show business, na moda. Ser estrangeiro é muito bacana. Acham bonito nosso sotaque. É claro que um brasileiro, é diferente dos outros estrangeiros. Vêm com o seu acento sexy (risos). Carregamos toda uma belíssima bagagem cultural, da música brasileira. Gilberto Gil, Caetano, Marisa Monte... Somos exóticos, presidente da República que era analfabeto, Gisele, a mulher mais linda do mundo. Todos aqui têm o CD dos Tribalistas, por exemplo. Claro que tem muito travesti brasileiro em Roma, e isso é referencial. Tem jogador de futebol que queimou o filme, mas têm jogadores brasileiros que são adorados. Uma modelo, apresentadora de tevê de um programa de moda, Fernanda Lessa, é personalidade nacional. No final, penso que o peso de ser brasileiro é sempre positivo... . Eu gosto muito de uma coisa: Quando te perguntam:''De onde você é?...E você responde: Brasil...as pessoas sorriem.'' .
Qual foi a repercussão do desfile e qual a sua idéia principal ao criar a coleção? O que Icarius quer hoje?
A idéia principal era criar uma coleção com o espírito que Pino Lancetti criou nos anos 70 e 80. Um universo absolutamente feminino e elegante. Ele vestiu mulheres glamurosas, de Gina Lolobrigida às principais princesas do mundo. Esse desfile traz Lancetti de volta. Uma marca que fez a história da moda italiana. E isso tem sempre muito aval. A imprensa prestigiou muito a coleção, em todos os aspectos. Somos já um sucesso comercial com esta coleção, mais de 15 países no mundo terão em suas lojas a marca na próxima estação. A Lancetti quer retomar o espaço que já foi seu um dia, porém em âmbito internacional.


