''Nunca escondi de ninguém que a memória é meu prato predileto'', avisa o estilista mineiro Ronaldo Fraga, que mais uma vez conseguiu emocionar a platéia com um desfile primoroso segunda-feira à noite, no encerramento da São Paulo Fashion Week (SPFW). ''Estou sempre inventando desculpas para falar novamente de memória'', completa.
E a 'desculpa' da temporada foram as lojas de tecidos. Além de dar nome e forma à coleção outono-inverno, a 'Loja de Tecido' também lembra o primeiro emprego do estilista. ''Tinha uns 16 anos e não sabia nada de moda, mas desenhava bem'', conta Fraga. ''As antigas lojas de tecidos foram o último lugar onde o homem tinha autonomia na construção do personagem. O tecido obedecia o corpo, hoje é o corpo que obedece o tecido'', explica o estilista, que criou roupas bordadas com o próprio tecido e uma gama de detalhes minuciosos e artesanais.
A coleção de número 25 do mineiro é um marco para ele. ''Não é pretensão, mas tenho a opção de renascer, de reinventar'', explica Fraga. A idéia da reconstrução, aliás, marcou a semana de moda paulistana. O estilista Marcelo Sommer que ganhou reconhecimento com a grife Sommer, vendida há alguns anos para um grupo catarinense, está com uma segunda vida fashion com a marca Do Estilista. O desfile aconteceu em um dos bosques do Parque do Ibirapuera no entardecer. A imagem bucólica com trilha sonora ao vivo do cantor Arnaldo Antunes também foi um dos destaques do último dia da SPFW.
Durante seis dias, as passarelas apontaram caminhos para o outono-inverno. Os volumes como os balonês, para surpresa geral, ainda seguem por pelo menos mais uma estação. Os tons escuros dominam o guarda-roupa, mas os toques coloridos são imprescindíveis. O xadrez está presente na maioria das coleções. O perfume country - bem sutil, diga-se - também deu o ar da graça e em grande estilo, já que foram a inspiração para alguns dos melhores desfiles da temporada como o de Alexandre Herchcovitch (masculino) e Reinaldo Lourenço.
Os comprimentos continuam curtos e nos pés, sapatos com inspiração masculina sem descer do salto. A novidade para o inverno são as galochas coloridas, que demoraram um pouco para chegar ao Brasil, depois de fazer sucesso entre européias e norte-americanas.
Além do vaivém das modelos - tops internacionais Made in Brazil como a número 1 Raquel Zimmerman, Izabel Goulart e Carol Trentini - o assunto da 24 edição da SPFW também foi negócio. Anúncios de compras de grifes conceituadas por grupos de investidores sugerem uma nova fase para a moda brasileira. Com os grandes investimentos, a expectativa é de crescimento, principalmente no exterior.
A jornalista Karla Matida viajou para São Paulo a convite da organização do evento.

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