MODA - O Brasil é fashion
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de julho de 2003
Rosângela Vale<br> Do Rio de Janeiro 
Diante de tantas contradições arraigadas na cidade, o Rio de Janeiro parece ter uma simpatia especial pela diversidade. Isso ficou evidente anteontem, nos desfiles de duas grifes com forte identidade carioca. Enquanto a Blue Man fez sua ode à liberdade com uma apresentação absolutamente fora do convencional, a Complexo B imaginou um concurso de beleza masculino, recheando a coleção de referências à cultura de vários Estados brasileiros.
A marca de David Azulay surpreendeu o público desde a primeira entrada. Na passarela de areia dourada (purpurina pura), as atrizes Vanessa Lóes, Bety Gofman, Débora Evelyn e Roberta Rodrigues, tiveram seu momento ''rodrigueano''. Insandecidas, rasgaram os vestidos de noiva de papel (revelando biquínis em tons de sol), ao som das gargalhadas incontroláveis de Elvis Presley na impagável versão de ''Are you lonesone tonigh?'' Tudo obra da diretora teatral Bia Lessa, que alterou o tradicional vaivém dos modelos com performances e incluiu no casting percussionistas e funkeiros. A platéia foi ao delírio.
O destaque dessa eclética Blue Man é a linha de biquínis bordados com mensagens de apelo popular, inspiradas na obra do artista plástico mineiro Jorge Fonseca. As peças em preto e branco, com frases do tipo ''faço qualquer coisa para chamar sua atenção'', têm tudo para virar mania nas areias Brasil afora.
No verão da grife masculina Complexo B, o que não faltam são fortes candidatos a hits de verão. Pelo menos para a descolada clientela da marca, que deve aderir, sem preconceitos, à ótima bermuda-saia, perfeita para os tórridos dias de verão na cidade. Os regionalismos surgem em forma de estampas: do peixe-cobra pirarucu (nas irreverentes sungas), do guaraná Jesus (bebida típica do Maranhão) e de ídolos nacionais como Chico Mendes e cacique Juruna, que aparecem nas camisetas. Outro ponto alto da coleção é o tecido rebordado, feito em tear manual. No final, uma homenagem do estilista Beto Neves à Pedro Aguinaga, eleito o homem mais bonito do Brasil nos anos 70.
A carioquíssima Sandpiper também deu o seu recado anteontem: para a areia e o calçadão, bom mesmo é conforto e despojamento. Camisas amassadas, Capris e vestidinhos tie-dye deixam no ar a impressão de que não é preciso mais nada para ser feliz no verão. Ledo engano. Na malemolência da carioca, há um requinte especial, feito de costas nuas, pernas à vista e formas que acariciam o corpo, característica traduzida com maestria pela estilista Andréa Saletto. Com algodões amassados e gazes engessadas em tons pálidos, pontuadas pelo verde, ela enobrece o rústico e simplifica o sofisticado. Chique demais. Já a Cavendish, estreante no evento, misturou sportswear e anos 60, numa leitura pouco criativa.
A jornalista Rosângela Vale viajou a convite da organização do Fashion Rio.


