Curitiba O espírito renascentista baixou em Enesoe Cham, estilista que abriu a segunda noite de desfiles do Curitiba Fashion Art (CFA), anteontem. Moçambicano, criado em Curitiba, estudioso de moda e conhecedor da vida, o estilista toca num ponto sensível da sociedade contemporânea com um descaramento e profissionalismo digno de ser aplaudido de pé (como foi).
O mote era ''A (des)construção da identidade masculina através da roupa''. Ou seja, Enesoe deu a cara para bater, apontando a roupa como um artifício usado pelos homens que estão a fim de assumir que não gostam de fliperama, e sim de brincar de bonecas. E acerta em cheio ao mostrar com sofisticação suas criações para esses príncipes do Século XXI.
As cores utilizadas foram o rosa e o azul, tudo bebê. Os modelos apareciam numa boca de cena com o símbolo da Renascença de Leonardo da Vinci (o homem multifacetado). As peças, em grande maioria, feitas em tricoline ou linho, vinham sempre com cortes que valorizavam as formas. Bermudas com recortes deixando até o bumbum à mostra, calças curtas com drapeados na barra, blusas de lástex (quem lembra? São enrugadinhas, as meninas usavam na década de 70), camisas com babados enormes e paletós. E o mais instigante, cordinhas de cortinas Luxaflex estrategicamente colocadas em algumas partes das peças, tipo puxe e veja você mesmo quem somos.
Ao assumir a liberdade de expressão, o estilista mostrou sua criação com um detalhe fundamental: tudo muito bem-acabado, pensado e resolvido na cabeça do criador. E o melhor, para os mais tradicionalistas pode até parecer que é roupa que não vende, mas vende sim e muito. O mercado de homens que assumem seu lado feminino está cada vez maior e isso todo mundo sabe.
Passado o furor do primeiro desfile, foi Jean Pierre Lobo quem deu sua versão de moda do momento nas passarela do CFA. O curitibano fez uma roupa que é a cara dele. Uma espécie de Harvey Keitel moderno, um Elvis também renascido, um personagem underground que tem passado.
As peças de Jean Pierre Lobo saíram dos metrôs de Berlim (ele usa minimalismo alemão em várias criações) com modelos desafiadoras, irretocavelmente maquiadas e penteadas. Ele confia no que vive e para isso fez calças jeans com bolsos grandes atrás, parecendo meio engomadas. As garotas usaram calças de cintura baixa com ilhoses em toda a parte da frente, ou vestidos vermelhos contraditórios ao espírito da coleção, uma alusão ao exotismo oriental.
Em poucos minutos de um desfile bem editado, Jean Pierre Lobo mostrou mais uma vez, que tem uma carreira consolidada e faz o que quer das suas roupas. Há quem as use também por esses lados de cá, onde não há metrôs e sim estações-tubos e pontos de ônibus high tech. É moda de rua sem inovações, instigantes, mas que refletem uma atitude contemporânea.
Encerrando a noite apareceram os tradicionalíssimos vestidos de Karina Kulig. A estilista apresentou peças inspiradas na natureza. Mostrou também uma tendência espanhola num vestido preto longo cheio de babados na frente. Visitou o prata, o verde e o bege-dourado. Mostrou que sabe fazer plissados e trabalhou bem a malha, uma herança da família. A novidade da apresentação passou quase despercebida: Karina está com uma parceria com a designer de bijuterias Giovanna Tarquínio. Os vestidos, resultado do trabalho conjunto das duas, apareceram no finalzinho do desfile.

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