Curitiba ''Moda é cultura'', disse Jack Lang, ministro da Cultura da França em 1982. Para os franceses, a moda está tão encruada na sua história de desenvolvimento cultural e econômico que é impossível separar uma coisa da outra. Foi graças a ela que Paris, por exemplo, recuperou a auto-estima após a grande depressão que sofreu com a II Guerra Mundial, entre 1945 e 1946, quando fez a famosa exposição Le Théatre de la Mode O Teatro da Moda. Com miniaturas de vestidos de grandes maisons, demonstrou ao mundo que, mesmo depois de tantas perdas, o espírito francês de criação continuava vivo.
Refletindo sobre o comportamento da moda nos últimos 60 anos, como um caldeirão de acontecimentos que ferve tanto que respinga em todo o universo, Ivaldo de Lima, cabeleireiro há 30 anos em Curitiba, resolveu estudar a evolução dos cabelos dentro do contexto da moda. O fruto dessa imersão está em exposição no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba. ''A Evolução das Cabeças'', montada por Lima e sua equipe, relata o elo entre história e moda dos cabelos, de 1945 até os dias de hoje. A mostra apresenta 20 cabeças.
Na noite da última quinta-feira, mais 30 imagens passaram a integrar outra mostra que trata do assunto: ''Moda Retratada A Fotografia Alemã de Moda de 1945 a 1995'', promovida pela Fundação Cultural de Curitiba e Instituto Goethe, que já estava em cartaz e continuará junto com a ''Evolução das Cabeças''.
Ivaldo teve o desejo de saber onde a moda dos cabelos começou e acabou por desencadear um momento novo na agenda cultural da cidade. ''Tive vontade de fazer uma pesquisa e procurei a Fundação Cultural. Fiz uma cabeça e eles adoraram a idéia''. O prosseguimento de tudo isso se deu com o turbante usado na década de 40. Naquela época as mulheres ainda não cuidavam de cabelos, somente os homens e, como muitos deles foram recrutados para a guerra, o turbante acabou virando moda.
Na sequência aparecem vários momentos determinantes para o estudo da evolução feito por Lima. É na década de 60 que começam a surgir novos tipos de penteados. Muitos deles ditados pelas irmãs Maria e Rosy Carita, de Paris. ®MDBO¯®MDNM¯Foram elas que abriram uma nova era parisiense e começaram a ganhar espaço para o reinado feminino. A dupla propôs penteados como coques à espanhola, perucas extravagantes para noites festivas, as famosas franjas lisas à moda de capacetes enfiados até os olhos e também criou o penteado Sol em 1968.
Dos anos 60 em diante é que começaram a aparecer os cortes de cabelos. As irmãs Carita criaram o corte curtíssimo usado pela atriz Jean Seberg no filme ''Acossado'', de Jean Luc Godard (1960). Depois disso vieram os black powers de Ângela Davi e Jimmy Hendrix, marcas de tempos de paz e amor. O rastafari na loírissma Bo Derek, a mulher nota 10 do cinema novamente na moda em várias leituras de tranças , o comportado cabelo da princesa Diana, os permanentes, até chegarmos aos dias de hoje, definido por Ivaldo como um tempo de ''pluralidades''.
Assim como passearam pelos movimentos sociais como o hippie e o punk, da década de 90 para cá as cabeças enfrentam a globalização. É a liberdade que se vê nas passarelas ou nas ruas, como alguns preferem acreditar ganhando terreno.
A aceleração da mídia leva os grandes centros de moda Paris, Londres, Milão, Nova York e Tóquio a lançarem duas coleções por ano e com isso fica difícil dizer o que é moda. ''Hoje você não sabe qual é o cabelo da moda. Se é o da Giovana Antonelli ou se o da Malu Mader. Tudo é usável'', relata. Independente do que seja, as cabeças de hoje podem apostar numa onda de ''sou do jeito que eu quiser'' e entrar para a história. Tempos bons de liberdade para pensar e usar.


Serviço:
- Exposição ''A Evolução das Cabeças - de 1945 ao Século XXI'', até dia 1º de agosto, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba - Centro Cultural Portão (Avenida República Argentina, 3.430). De terça a sexta-feira, das 9 às 12 e das 13 às 18 horas; sábados e domingos, das 9 às 14 horas. Entrada franca.

mockup