MODA - Aguenta coração!
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de janeiro de 2004
Karla Matida<br> Enviada a São Paulo 
Crônica vestível? Só mesmo o mineiro Ronaldo Fraga para criar algo assim tão simples e tão poético. É um outro jeito para explicar que cada coleção, cada peça dele tem sempre uma historinha por trás. No caso do outono-inverno de Fraga, que abriu ontem o terceiro dia de desfiles da São Paulo Fashion Week, a inspiração vem dos anos 1930 e 1940, auge da chamada música dor de cotovelo criada pelo gaúcho Lupicínio Rodrigues.
Para contar na passarela a história de ''Quantas noites eu não durmo...'' o batom da mulher está borrado e os cílios postiços fora do lugar. Fim de noite, fim de romance? Para o estilista, Lupicínio foi um ''criador de canções que trilhou como nenhum outro a linha tênue entre o piegas e o profundo''. No caso das criações Fraga, há também um caminho perigoso com todo o dourado das estampas silkadas, dos acessórios e do brocado. Mas é claro que ele acerta o limite e chega na nova estação com a silhueta bem mais esbelta. As roupas estão mais próximas do corpo porque é claro que as mulheres que Lupicínio tanto amava eram mesmo sensuais, mas sem precisar se abalar em decotes ou curtos comprimentos.
E se os casos do compositor gaúcho sempre acabavam em música que falavam da dor do amor, Ronaldo Fraga acaba de anunciar um novo casamento. No caso, união do estilista com o algodão colorido da Paraíba. Não é uma novidade a pesquisa da Embrapa já tem 14 anos mas agora ganha ares fashion com a benção do estilista.
Nem bem passou a ressaca do furacão Gisele, eis que a Bienal teve novo burburinho a palavra tumulto não tem o glamour necessário num evento de moda, mas é claro que quem se espremeu para entrar no desfile feminino da Forum sabe que na hora do aperto não há muita diferença. Tudo porque a poderosa Maria Clara Diniz estaria no desfile. Não só ela como seu desafeto, o jornalista Renato Mendes. Coisa de novela? Pode apostar. O diretor de ''Celebridade'' Denis Carvalho gravou na quinta-feira uma cena para a novela. Ao lado, na passarela, a Forum volta à boa forma com doses generosas de sensualidade e elegância. As celebridades vão adorar usar os vestidos longos e decotados nas festas black-tie. E quem é gente como a gente também vai se encantar com as novas escamas em georgete propostas por Tufi Duek, que temporadas atrás abalou muita gente com paetês gigantes. Além das camadas de georgete, a saia cor da pele ainda tem um brilhinho especial.
Quem já foi a Monte Sião sabe que Minas Gerais tem mesmo vocação para o tricô. Por lá uma loja atrás da outra segue temporada após temporada entre linhas e lãs. Pois é do mesmo estado que vem a Patachou por Tereza Santos, que cada vez mais reafirma suas origens apostando mesmo no tricô. As garotas colecionam cachecóis e mais cachecóis para perambular por aí. Vagam sem destino e se protegem com cores.
Depois da mulherada colorida, homens sofrendo de amor no desfile de Mario Queiroz. De modo que o tal homem romântico escreve cartas e poemas de amor, depois bebe vinho e rasga livros e mais livros tamanho o desespero. Na passarela, ele coleciona as rolhas das garrafas e as pendura pelo corpo, que alterna os tons preto e cinza entristecidos com um vermelho aqui e ali. Sim, ainda resta uma esperança para o amor.
Garoto de praia que não tira os chinelos de dedo por nada, o carioca Maxime Perelmuter não tem muito com o que se preocupar. Amor, dinheiro, fama? Deixa pra lá porque ele está bem sorridente. Está certo que pergunta no final se Deus está por aí (God, are you there?), mas segue firme e decidido. É por isso mesmo que sua coleção ''mantém o não rótulo, agora incluindo o grito''. A tradução? Os garotos da British Colony têm um perfume grunge nas camisas xadrezes usados com bermudas. A atitude fica por conta dos colares de osso.
A mulher Ellus encerra a noite sugerindo um clima brecholento. Segue na linha vintage resgatando algumas peças e texturas dos anos 70, num hippie chic bem brilhante. Até o jeans chega com bordados ofuscantes. O tom é mesmo o dourado.
Ou seja, é melhor ir aposentando as correntes prateadas.
A jornalista Karla Matida viajou a São Paulo a convite da organização do evento.


