Três dias, 21 desfiles, incontáveis emoções. O final de semana da São Paulo Fashion Week (SPFW) foi movimentado de sensações e propiciou imagens desde já inesquecíveis. O desfile da Raia de Goeye, por exemplo, que aconteceu no Teatro Municipal. Quem achava que se daria o convencional errou longe porque as estilistas e o genial diretor Alberto Renault (nesta temporada ele também esteve nos bastidores de Isabela Capeto e Maria Bonita Extra) preferiram inverter tudo. De modo que público foi instalado no palco e as modelos vinham da platéia. Para combinar com a imponência do cenário, a dupla Fernanda e Paula não deixou por menos e apresentou vestidos deslumbrantes. O destaque é o veludo verde da jaqueta-bata do final da apresentação, que é o mesmo das cadeiras e cortinas do teatro.
  Quem também escolheu um teatro foi a estreante Neon, que optou pelo Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa para mostrar sua moda praia turbinada com saídas e acessórios. Os biquínis comportados e quimonos de malha já estão sendo comercializados no exterior o que é um trunfo para um marca que tem apenas dois anos e meio e está no seu quarto desfile. O primeiro, acreditem, aconteceu na casa do estilista Dudu Bertholini. Outra boa estréia também marcou o final de semana, que teve Érika Ikezili, procopense radicada em São
Paulo, pela primeira vez se apresentando na SPFW (depois de ter passado pelo Amni Hot Spot).
  Ao contar uma história de amor entre um menino-militar e uma menina-floral, a estilista mostrou dois de seus pontos fortes. O trabalho com o jeans - que agora ganha losangos - e as dobraduras nos tecidos, um origami (arte japonesa de dobrar papéis) fashion que encanta pela delicadeza.
  Mesmo quando estiveram longe dos palcos, as coleções apresentadas também tiveram seus lances de dramaticidade, mesmo que a serviço do humor. A grife masculina V.Rom, de olho no remake (a ser lançado em breve) do filme ‘‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’’, brincou com as figuras de Willy Wonka, Charlie e as compulsões, tanto por chocolate como por coleções (de pingüins e soldadinhos de chumbo). O homem mais sério, mas não tão sisudo, tem na VR Menswear modelagem clássica, mas nos tons da estação, os amarronzados dos tonéis de uísque e os xadrezes dos kilts escoceses.
  Os desfiles de Lino Villaventura, que têm sempre um toque de palco, de teatro, desta vez foi mais ‘‘básico’’, se é que se pode usar tal palavra para descrever as criações do paraense, que sempre se esmera na construção das roupas. Para o inverno, aposta no mosaico de quadradinhos de tecido para dar uma textura de escamas em seus vestidos e saias rodadas. Pela primeira vez, Lino preferiu separar a apresentação feminina da masculina, que é menos glamourosa e, como ele mesmo diz, mais comercial.
  Grife exclusivamente masculina, Mario Queiroz se inspirou numa torre de babel que são os aeroportos internacionais para criar um homem étnico e multicultural. Da África vêm as estampas de bichos, dos Andes os ponchos e de Maringá, os fios do Casulo Feliz. A estilista Raquel Davidowicz, da Uma, também pegou a mala criativa e viajou até o Japão para pensar o seu inverno 2005. O obi (faixa do quimono) de paetês já virou objeto do desejo. A Cori, que tem Alexandre Herchcovitch na direção de estilo, optou por terras geladas e trouxe na bagagem o folk em peças floridas e bordadas com passamanarias e sianinhas.
  Com tantas notícias de guerras, a moda busca a paz de um jeito que só ela poderia fazer: criando roupas pacificistas. É o caso do camuflado em veludo cotelê do mineiro Eduardo Suppes, que aposta na meiguice do rosa-fofolete para amenizar o dia-a-dia. Já o carioca Máxime Perelmuter, da British Colony, é mais explícito e batiza a coleção de Too Young to Die (muito jovem para morrer). Os modelos têm cabelo cortados ao estilo militar e o camuflado aparece em peças que lembram uniformes. A leveza fica por conta do Smiles (aquela carinha amarela sempre risonha).
  Ainda entre os destaques do final de semana, palmas para o veludo azul petróleo da Forum e para o perfume dos anos 1950 das saias e do tricô artesanal da Huis Clos. Depois de sete dias e 47 desfiles, as cortinas da Bienal se fecham hoje encerrando uma temporada de boas apresentações. O último desfile da SPFW está programado para às 20h30, com o Luxo Para Todos da Cavalera, que antecipa que irá fazer um grande teatro. Com direito a réplica da Coroa Imperial e performance de Maria, a Louca.
A jornalista Karla Matida viajou a São Paulo a convite da organização do evento.

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