O tema ‘‘Brasil 500 Anos’’ não estará presente apenas nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Em Curitiba, das seis escolas do grupo especial, quatro optaram por explorar o mesmo assunto. Este é o caso, por exemplo, da Mocidade Azul, escola que já venceu o Carnaval de Curitiba 14 vezes. Quinhentos componentes irão desfilar no sábado à noite, ao som do samba-enredo ‘‘Velhas Histórias Para um Novo Brasil’’, composto por Divino & Pessanha.
‘‘O nosso apelo é social, falamos de brancos, negros e índios’’, explica a presidente da Mocidade Azul, Hilda Barbosa. A escola denuncia as injustiças cometidas e faz um apelo para que os próximos 500 anos sejam de igualdade social.
O último dos três carros alegóricos que estarão na avenida representa a Justiça. Nele, apenas estarão crianças, além de uma passista simbolizando a ‘‘deusa da justiça’’.
No samba-enredo, a idéia também é reforçada. ‘‘Neste solo fértil e tão gentil, então, todos nós somos irmãos de uma trilogia racial, querendo amor e justiça social’’, diz parte do refrão.
Hilda explica que o tema da escola é sempre definido na época do Carnaval anterior, segundo pesquisas feitas pelo carnavalesco Renato Gentile. ‘‘Já sabemos, por exemplo, que o nosso tema para o desfile de 2001 será a moda country’’, antecipa. A partir da escolha do tema, integrantes da escola partem para o desenvolvimento do enredo e histórico.
Apesar de trabalharem com bastante antecedência, as fantasias deste ano só puderam ser confeccionadas a partir de dezembro. Segundo Hilda, ‘‘por pura falta de verbas’’. Por isso, agora a correria é geral. Nesta semana, o barracão da Mocidade está funcionando a todo o vapor, praticamente 24 horas por dia. ‘‘Eu costuro fantasias, varro o chão, faço qualquer negócio. O título de presidente não quer dizer nada nestas horas’’, comenta Hilda.
Ela garante que o resultado compensa e que as fantasias estão ‘‘lindas,
bem-acabadas e brilhantes, prontas para ganhar o Carnaval’’. Ao todo, estarão na avenida 12 alas e três carros alegóricos. A previsão inicial era de que 350 componentes desfilassem com a Mocidade Azul, mas o número aumentou rapidamente e já chegou a marca de 500 pessoas, sendo 100 crianças.
O custo total para pôr a escola na avenida é superior a R$ 30 mil. A Prefeitura de Curitiba contribui com menos de metade e o restante a escola arrecada através de festas, bailes e jantares realizados durante todo o ano.
Hilda garante que a sua escola só não tem mais integrantes porque não há dinheiro para fazer mais fantasias. Ela conta que os componentes vêm dos municípios de Araucária, Colombo e de todos os bairros de Curitiba. Todos eles trazem amigos, parentes e conhecidos para participar. ‘‘Escola de samba é como time de futebol, cada um tem a sua paixão’’, diz.
Com 55 anos de idade e 24 de Mocidade Azul, Hilda critica a falta de apoio da Prefeitura ao Carnaval. ‘‘Não adianta só dar dinheiro, precisamos de reconhecimento’’, reclama. Ela diz que é muito difícil fazer Carnaval em Curitiba, porque ‘‘aqui as pessoas têm vergonha e preconceito com o seu Carnaval, achando que é coisa de pobre’’.
Ela pede que, antes de criticar, os curitibanos conheçam o trabalho feito nos barracões das escolas, onde famílias inteiras dão duro para chegar na avenida. ‘‘Fazemos um trabalho cultural e social, não é só farra não’’, garante.
A escola Mocidade Azul irá desfilar na Avenida Cândido de Abreu, em Curitiba, no sábado, às 22h30. Os ensaios da escola acontecem na Rua Bom Jesus do Iguape, 1.655, após às 21 horas. Mais informações pelo fone (41) 245-8052.