São Paulo - Os programas de ''work and travel'' ganharam popularidade no Brasil nos últimos anos, mas em muitas agências ainda não conseguiram vencer o apelo de outro programa de trabalho remunerado: o au pair. Nele, jovens - geralmente mulheres solteiras -moram com uma família no exterior por um ano e têm oportunidade de estudar o idioma local, enquanto cuidam das crianças da casa.
A idéia é que, mais do que desempenhar a função de babá, o intercambista tenha tempo livre para estudar e seja tratado como parte da família. Daí o termo ''au pair'', que em francês significa ''em igualdade''. Muitas vezes, é exatamente isso o que ocorre e o jovem volta para casa extremamente satisfeito.
Mas, infelizmente, esse tipo de programa é usado por algumas famílias como uma maneira de obter mão-de-obra barata. Explica-se: os au pairs não ganham salário, mas uma espécie de bolsa auxílio. Nos Estados Unidos, ela é de US$ 139 por 45 horas de trabalho por semana, o que equivale a US$ 3 por hora, quando o salário mínimo no país é de US$ 5,15. As famílias precisam dar moradia e comida ao jovem, mas, mesmo assim, ter um au pair em casa é mais barato do que contratar uma babá nativa.
O resultado é que jovens brasileiras como Francisca, de 27 anos, têm voltado da terra do Tio Sam com a impressão de que pagaram não por um programa de intercâmbio, mas por uma posição de empregada doméstica. ''Eles acham que você é pobre e não tem como ir para os Estados Unidos de outra forma. É como se uma família de classe média de Copacabana contratasse um migrante nordestino e falasse 'você vai ter uma troca cultural, vai viver aqui, conosco, ricos''', diz. Francisca morava numa comunidade afastada e às vezes não tinha condução para frequentar o curso de inglês que queria. ''A mãe da família falava que eu estava lá apenas para cuidar das crianças.''
A estudante Victoria, de 22 anos, fundou até a comunidade no Orkut - ''Por que não ser Au Pair'' - depois da sua experiência frustrada. Numa das duas casas em que ficou, ela precisava pagar por sua comida - algo contrário ao programa. ''Resolvi pedir à agência para trocar de casa. Aí a família ficou chateada, colocou as minhas coisas para fora e trancou a porta'', diz.
Andrea Fagundes, de 27 anos, também não gostou da experiência. Sua anfitriã americana tinha uma pasta de regras para ela. ''Dizia que eu não poderia sair com roupas que mostrassem o meu sutiã ou a minha barriga. Quem ela pensava que eu era?'', afirma. ''Mas, se você realmente encontrar uma casa que te receba como membro da família, com certeza terá o melhor ano da sua vida. Viver nos EUA é bom'', ressalva.

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