São Paulo, 29 (AE) - Um barco suspenso no palco do Teatro Jardel Filho, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), será o cenário onde os atores Rodrigo Matheus e Eugênio La Salvia viverão a aventura de contar a história da caçada à lendária baleia branca no espetáculo "Moby Dick". Cristiane Paoli-Quito é a diretora do espetáculo, cujo texto foi adaptado por Matheus do romance de Herman Melville.
A partir da semana que vem e até o fim de maio, quatro espetáculos da Cia. de Circo Mínimo estarão em repertório no CCSP: "Orgulho" (terças), "Prometeu" (quartas), "Deadly" (quintas e sextas) e "Moby Dick" (sábados e domingos). Uma boa oportunidade para conhecer ou rever o trabalho da companhia criada por Matheus, um dos mais talentosos representantes do chamado teatro físico. "Deadly", além de ter surpreendido como o melhor espetáculo do Festival Teatro de Curitiba de 1997, participa em agosto do Festival Internacional de Edimburgo.
Pode parecer impossível traduzir para a linguagem teatral o embate entre homem e baleia narrado no romance original, mais apropriado, numa adaptação, ao cinema. Cientes disso, Matheus e Cristiane optaram por um roteiro concentrado e denso, que destaca o que consideram essencial: o estado de brutalidade a que pode chegar um homem obcecado.
Em cena, apenas dois personagens, o capitão Ahab (La Salvia) e o marinheiro Ismael (Matheus). O primeiro, um obcecado pela idéia de vingar-se da baleia que um dia lhe decepou a perna. "Sua obstinação é sua falha trágica; ele não consegue pensar em outra coisa a não ser em vingança", diz La Salvia. "Ele pode ser encarado como um feroz assassino e ao mesmo tempo um homem fascinante, já que consegue envolver toda uma tripulação".
Já o marinheiro Ismael tem na alma o desejo de aventura que o leva aos mares, mas não é um caçador de baleias. "Sabe aquele desejo que a gente tem de vez em quando de mudar de cidade, de amigos, de vida?", pergunta Matheus. "No fundo é um misto de vontade de descobrir um novo mundo com um desejo de fuga".
Ismael padece dessa contradição. "Ele busca a aventura, mas no meio do caminho percebe que não queria ir tão longe". Mas a obsessão cega do capitão não admite recuos. "Chega uma hora em que ele não tem opção: ou se amotina e mata o capitão ou vai lutar com a baleia; é matar ou matar".
No palco, a narrativa concentra-se em dez cenas curtas. Na primeira, o Capitão aguarda no porto a oportunidade de partir. A segunda marca o encontro entre Ismael e Capitão. Em seguida, o público aprecia a montagem do barco, uma estrutura de metal e cordas que será içada no palco. Daí em diante, os atores estarão o tempo todo equilibrados nessa estrutura, obrigados a lidar, como os personagens, com o imponderável - não há controle sobre o balanço do barco - e a superação de seus limites físicos.
"Trata-se de um espetáculo antes de mais nada sensorial", diz Cristiane. O trabalho corporal dos atores mistura técnicas de teatro, circo e dança, daí a participação da coreógrafa Telma Bonavita em sua preparação. A partir da quinta cena começa a interferência dos fatores externos. Uma vela que arrebenta, uma baleia que surge, o ação do tempo, uma vez que ambos passam quatro anos no navio. Após a calmaria vem a luta contra uma tempestade e, finalmente, o combate fatal com Moby Dick.
"A batalha final confronta a besta humana à besta ânima", comenta Cristiane. "Em sua obsessão, os personagens vão aos poucos perdendo a racionalidade e no fim homem e animal são movidos apenas pelos seus instintos". Não é difícil traçar paralelos entre a obsessão do capitão e certas obsessões contemporâneas. SERVIÇO - "Moby Dick". Drama. Texto de Herman Melville. Direção de Cristiane Paoli-Quito. Com Rodrigo Matheus e Eugênio La Salvia. Duração de 60 minutos. Sábado, às 21h30; domingo, às 20h30. R$ 12,00. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 277-3611. Até 30/5. Estréia amanhã, às 21h30

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