São Paulo, 23 (AE) - A nata do samba do Rio de Janeiro - ou boa parte dela - reúne-se amanhã (24), na Tom Brasil para um espetáculo único. Esquina Carioca - Uma Noite com a Raiz do Samba tem no palco, como anfitrião, o compositor Moacyr Luz, que receberá os pares: Beth Carvalho, Walter Alfaiate, João Nogueira
Luiz Carlos da Vila e Dona Ivone Lara. Um painel riquíssimo das várias maneiras de fazer samba e cantar samba, troca de idéias do jeito que o mundo do samba gosta: numa roda de samba.
Os dois grandes veteranos são Dona Ivone Lara e Walter Alfaiate. Dona Ivone, madrinha da ala dos compositores do Império Serrano - foi a primeira mulher a integrar uma ala de compositores de escola de samba e a primeira a ter um samba, aliás vencedor, cantado no desfile, Cinco Bailes da História do Rio, que fez com Silas de Oliveira -, é do bairro de Botafogo, na zona sul do Rio, assim como Walter Alfaiate.
Ela já comemorou seus 50 anos de compositora e cantora - atividade que dividiu com a de enfermeira, durante muito tempo. Saía do hospital para a quadra da escola e sempre foi tão boa enfermeira quanto genial sambista, uma das maiores criadoras de melodias da música popular. Tem mais de 300 músicas, algumas grandes sucessos, como "Sonho Meu, Alguém me Avisou, Acreditar, Mas Quem Disse Que Eu Mereço?" Zeca Pagodinho, Martinho da Vila
Djavan, Gilberto Gil e outras estrelas participaram, há dois anos, do seu último CD, "Bodas de Ouro", uma bela homenagem a quem merece todas as homenagens.
Walter Alfaiate, nascido Walter Nunes de Abreu, elegância do samba personificada, herdou o apelido da profissão exercida no ateliê botafoguense, que ainda hoje, aos 68 anos, combina com a dedicação à música. Grande compositor, é considerado - por gente como Paulinho da Viola, Martinho da Viola, Aldir Blanc - o melhor cantor do samba, herdeiro de Ciro Monteiro na ginga maliciosa que define divisões sempre surpreendentes.
Apesar da longa carreira e das músicas gravadas por Elza Soares, João Nogueira, Christina Buarque, Paulinho da Viola (e é o parceiro de Niltinho da célebre "Tristeza" - "Por favor vá embora/ Minha alma que chora/ Está vendo o meu fim") , só foi gravar o primeiro disco-solo no ano passado. O CD "Olha aí" saiu com o selo Alma, fundado por Aldir Blanc e Marco Aurélio. Paulinho da Viola e Aldir compuseram, especialmente para o disco
um samba em que homenageiam os sambistas de Botafogo. Na voz do maior cantor do samba do bairro, fecha-se a homenagem.
Do subúrbio do Méier vem João Nogueira, dito o guerreiro do samba, dono de senso de divisão muito especial (tem uma maneira, só dele, de atrasar as entradas ou as finalizaçõess das frases melódicas e, ao ir compensando o atraso proposital, criar síncopes deliciosas, redimensionando melodias e letras), autor de clássicos como "Nó na Madeira, Poder da Criação, Espelho", para citar uns poucos de mais de 300 que já escreveu. Clara Nunes, Elis Regina, Beth Carvalho, Roberto Ribeiro e todos os cantores importantes da música popular já gravaram suas criações.
João Nogueira fundou o Clube do Samba, núcleo de resistência que manteve a chama acesa nos anos 70 e 80, quando o gênero andou fora dos holofotes. Toda uma geração se formou nas reuniões do clube, onde João dava as cartas. O clube acabou, mas João continua dando as cartas.
Luiz Carlos da Vila acaba de lançar seu quinto disco, "A Luz do Vencedor", em que interpreta músicas do mitológico compositor Candeia, espelho, para ele, de grande criador e lutador pelas questões da cultura popular. Luiz Carlos começou a vida profissional nas rodas do fundo de quintal do Cacique de Ramos, onde Zeca Pagodinho também começou. Em 1989, levou a Vila Isabel à primeira vitória num carnaval, com o samba "Kizomba - Festa da Raça", criação memorável. Nara Leão, Jair Rodrigues, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho são alguns dos artistas que o gravaram. Seu samba "Além da Razão" ganhou o prêmio Sharp de melhor música em 1989. Luiz Carlos é herdeiro legítimo, único que realmente merece este título, da inteligência (e da sofisticação, da sensibilidade) melódica e poética de Cartola - não é preciso dizer mais.
A madrinha - Beth Carvalho é uma espécie de madrinha de todos os sambistas, descobridora de Zeca Pagodinho, Luiz Carlos da Vila, Arlindo Cruz, Sombra, Sombrinha - e de quem você possa lembrar-se que tenha surgido para o samba nos últimos quase 30 anos. É a grande cantora do samba - Beth não compõe, mas a maioria dos compositores (incluindo os compositores que também são cantores) tem tido sua obra revelada por ela, uma resistente que jamais trocou um milímetro do padrão de fidelidade ao verdadeiro samba por eventuais brilhos (financeiros ou outros) que a indústria cultural oferece. Beth é uma das grandes glórias da música brasileira.
Cabe dizer que Esquina Carioca - Uma Noite com a Raiz do Samba é uma produção - a primeira - do bar Pirajá, que fica numa esquina de Pinheiros e se vem tornando ponto de encontro de sambistas e amantes do samba. Em tempo: os quatro sócios da casa
amantes do samba, preferem chamar o Pirajá de botequim, sim, com muita honra. Foi nas mesas da botequim, frequentado por todo o elenco do espetáculo e por muitas outras estrelas do samba, que Moacyr Luz bolou Esquina Carioca, do qual é ainda diretor musical e mestre-de-cerimônias.
Parceiro de Aldir Blanc, o melhor sambista (e cançonetista) surgido nos anos 80, Moacyr é autor de hinos de beleza gravados por Maria Bethânia ("Medalha de São Jorge"), Beth Carvalho ("Saudades da Guanabara"), vencedor de Prêmios Sharp (por "Coração do Agreste", gravado por Fafá de Belém) - e assim por diante. Seus discos estarão à venda na Tom Brasil. Você não resistirá à necessidade de tê-los.

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