Numa cena decisiva de ''O Anjo Embriagado'', o dr. Sanada diz à enfermeira que Matsunaga, o gângster ferido que veio bater à sua porta, em busca de ajuda, age como um durão, mas por dentro é amargurado e solitário. Sanada, na verdade, está falando sobre ele mesmo, explicando-se (para ela e para o espectador), para que as pessoas entendam, afinal, por que um homem pode ser uma presa tão fácil da bebida. Sanada está querendo sugerir que talvez não seja muito tarde para o gângster tentar reconstruir sua vida, mas o destino de Matsunaga (e o dele) estão ligados de forma a construir uma tragédia, na qual a redenção do herói, mais uma vez, terá de vir pela violência e pelo sacrifício.
''O Anjo Embriagado'' é de 1948 e, quando fez este filme, Akira Kurosawa já possuía uma obra considerável, iniciada em 1943. Mas se você perguntar aos especialistas na obra do diretor japonês que morreu em 1998 - há dez anos, portanto - qual a importância do filme agora lançado em DVD (pela Lume), eles dirão que ''O Anjo Embriagado'' marca o verdadeiro começo da obra de Kurosawa-sensei. Até então, ele sofrera muitas vezes a pressão da censura e dos estúdios.
''O Anjo Embriagado'' foi o primeiro filme autenticamente kurosawiano, e o próprio autor o considerava um marco - o verdadeiro início de sua carreira. O filme é interpretado por Takashi Shimura (Sanada), com quem Kurosawa faria ''Viver'', e, no papel de Matsunaga, por um jovem lobo, Toshiro Mifune, que haveria de ser o astro de boa parte da obra do artista, até 1965, quando ambos romperam, após ''O Barba Rubra''.
O cinéfilo tem de agradecer à Lume por estar lançando ''O Anjo Embriagado''. A empresa do Maranhão está voltada à distribuição de DVDs de clássicos. Trabalha para um público especial, de cinéfilos, num mercado, o de DVD, que, por causa do preço ou da pirataria, tem-se retraído nos últimos tempos, após a explosão que marcou a popularização dos discos digitais, há alguns anos.
Só que, no mesmo pacote que inclui ''O Anjo Embriagado'', a Lume colocou outra pérola - mais preciosa ainda - do cinema japonês. Ambos os filmes já estão nas lojas especializadas e custam R$ 37,50 cada um. O outro título, se você é fã de verdade de cinema, se ama os clássicos, você conhece - é ''Contos da Lua Vaga Após a Lua Cheia'', de Kenji Mizoguchi, de 1953. Kurosawa pertence a uma geração posterior à de Mizoguchi e até, para seguir a cronologia, se pode dizer que quando ele alcançou sua consagração no Ocidente, tornando-se o mais conhecido cineasta japonês em todo o mundo, o outro estava encerrando sua grande obra. Pois Mizoguchi morreu em 1956, aos 58 anos.
Kurosawa desenvolveu sua carreira na Toho. Mizoguchi passou pela Nikkatsu e pela Shochiku - outras majors do cinema japonês - antes de se fixar na Daiei, onde realizou seus últimos (grandes) filmes. Com ''Contos da Lua Vaga'', ele alcançou a extrema depuração do seu estilo. Dizia que é preciso ''lavar os olhos'' entre uma tomada e outra, o que é uma forma de dizer que o filme deve limpar-se de todo ornamento, para tocar a essência. E Mizoguchi tinha um método sintetizado numa fórmula - ''one cut, one shot''.
Após longa preparação, ele filmava uma só tomada, quase sempre um plano-sequência, o que reduzia o aporte da montagem ao seu cinema. O filme flui num movimento contínuo como se o espectador estivesse assistindo ao nascimento da realidade, como dizem os devotos do autor.
Em ''Contos da Lua Vaga'', ele conta a história de um ceramista que, no século 16, abandona a mulher ao se apaixonar por um espectro. Quando volta para casa, ele passa a conviver com o fantasma da própria mulher, que morreu durante sua ausência. Não há nada, aqui, do fantástico com que o cinema ocidental (de terror) trata o gênero. Os espíritos de Mizoguchi integram-se ao mundo dos vivos, são filmados como partes da mesma realidade. One cut/one shot. Em dois lançamentos, a Lume oferece valiosas lições de cinema.

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