São Paulo, 23 (AE) - É simples, isso de dar som à alma brasileira - basta fazer como Miúcha, ir buscar Jacó do Bandolim e Capiba, Ari Barroso e Elton Medeiros, Chico Buarque e Ismael Neto, Paulinho da Viola e Tom Jobim, Sivuca e Maurício Carrilho, Luís Cláudio Ramos Edu Lobo, Antônio Maria e Maurício Tapajós, brasileiros de todos os cantos do País, identificados por certa constância de intervalos musicais, pela aplicação em determinado momento de certos acordes, pela utilização de um tipo de pausa, um jeito especial de síncope, o som das palavras - é simples, para quem queira fazê-lo. Ela, alma, ecoa nas ladeiras e praias do Rio, nas esquinas de São Paulo, nos detalhes arquitetônicos de cada cidade, nas tão diversas paisagens - e, afinal, por que se ouve tão pouco do som dela, hoje em dia? Miúcha oferece material para reflexão (e prazer de audição) em sou novo disco, "Rosa Amarela", o primeiro em dez anos. Uma produção japonesa, gravada e lançada lá há dois anos, que chega ao mercado nacional com selo da BMG, em tiragem modesta - de 5 mil exemplares - e amplas e amplamente realizadas pretensões estéticas. As canções são tratadas com inteligência, elegância e humor - às vezes humor ferino e indignado, como o de Querelas do Brasil, um achado desde o título, música de Sebastião Tapajós com letra de Aldir Blanc: "O Brazil não conhece o Brasil/Do Brasil, SOS ao Brasil" - menção a uma frase de Tom Jobim, na dedicatória (a Radamés Gnattali) de seu primeiro disco.
A graça e a crítica podem ser menos explícitas - pensem no amarelo dessa rosa japonesa. Por outro lado, "Rosa Amarela" não é um panfleto, um manifesto, mas a reafirmação da sensibilidade da intérprete, com a voz hoje mais grave e enriquecida por novas nuances de timbre e enfoque. Coisa que vem com a maturidade, aliada ao estudo, à dedicação ao patrimônio musical que, aliás, mesmo pouco ouvido, continua a construir-se. Miúcha torce para que o disco tenha ajudado o Japão a conhecer essa música. Faça também por nós. Japão - Numa ida ao Japão, há dois anos, acompanhada por Franklin da Flauta e pelo violonista Luz Cláudio Ramos - o assim batizado, na intimidade, Buffalo Trio, coisa de velhos amigos - Miúcha foi incentivada pelo baterista KazuoYoshida a gravar um disco para o mercado de lá. Yoshida é um desses japoneses que conhecem tudo de música brasileira e produziu uma obra prima - um disco do pianista João Donato com a cantora nipo-brasileira Lisa Ono.
Ela teve liberdade total: para escolher os músicos que a acompanhariam, o repertório que cantaria. Raciocionou: os japoneses conhecem muita bossa nova, mas a música brasileira é mais do que a bossa nova. De modo que pensou em músicas que serviram de base para que houvesse a bossa nova - "Valsa de Uma Cidade", de Ismael Neto e Antônio Maria, "Por Causa dessa Cabocla", de Ari Barroso e Ari Peixoto, "Doce de Coco", de Jacó do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho.
Pensou também no que veio depois da bossa nova, saiu dela, enriqueceu-se com ela e seguiu evoluindo - "Querelas do Brasil", de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, "Pressentimento", de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, "Cabrochinha", de Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro, "Só o Tempo", de Paulinho da Viola. Miúcha escolheu, ainda, músicas que, por timidez, nunca teve coragem de gravar, como o intrincado "Choro Bandido", letra de seu irmão, Chico Buarque, para melodia de Edu Lobo, e outras que todo mundo pensa que ela gravou, mas ela jamais gravou - é o caso de "João e Maria", de Sivuca e Chico Buarque. Aquela que diz: "Agora eu era herói/ E o meu cavalo só falava inglês". Quem gravou foi Nara Leão. A gravação dela foi de outra, que tem atmosfera parecida, "Maninha", letra e música de Chico. Feita para ela, como o nome aponta.
"A Mesma Rosa Amarela", de Capiba e Carlos Pena Filho, de que sai o título do CD, Miúcha canta há muito tempo, e um dia Capiba lhe disse que ninguém a cantava tão bem. Tinha que ter Tom Jobim, sem falta - o único clássico da bossa do repertório: "De Você eu Gosto" (parceria com Aluísio de Oliveira). E um original de dois terços do Buffalo Trio, Franklin da Flauta e Luiz Cláudio Ramos, com letra de Aldir Blanc, Santo Amaro. É uma regravação. A original é de 1980. Mas Miúcha a cantou há dois anos para os japoneses e eles ficaram emocionadíssimos, claro que sem entender uma palavra dos versos que falam das ruas e da geografia de Ilha de Paquetá, na Baía da Guanabara, de Pixinguinha e Jackson do Pandeiro, de casamentos e passarinhos, da Virgem do Outeiro e do Ameno Resedá.
Tinha que estar no disco, um choro que ultrapassa assim tantas barreiras, que se mantém fresco e eloquente depois de quase 20 anos - e a intérprete, afinal, sente-se mais madura para emprestar voz e sentimento às notas e sílabas, que bom. Para gravar, disciplina japonesa, foram 13 dias de 12 horas de estúdio por dia. Com os melhores músicos: piano e arranjos, Jota Moraes; violão e arranjos, Maurício Carrilho; violões, Cláudio Jorge, Luiz Cláudio Ramos, Pedro Adnet; clarinete, clarone e sax soprano, Paulo Sérgio Santos; Franklin da Flauta; bateria, Jurim Moreira; contrabaixo, Jorge Hélder, que Miúcha pôs na melhor roda há duas décadas, quando o cearense que hoje é efetivo das bandas de Chico Buarque e Caetano Veloso tinha 15 anos; percussão, Marcos Suzano e Kazuo Yoshida; o Quarteto de Cordas Guerra Peixe; e os japoneses Kiichiro Komobuchi, contrabaixista, e Yoichi Murata, trombonista que sabe como soa o trombone de gafieira.
Reunir esse time, no Brasil, para gravar essas músicas, seria complicado. Miúcha sabe: ouviria de todas as gravadoras que não daria certo, isso de gravar velharias. Ouviria: velharias. Mas essas canções são eternas e riquíssimas, têm ângulos por explorar, matizes por vir à tona - é disso que ela se encarrega. Orgulha-se, sobretudo, por ser autora do projeto. Seu primeiro disco, de 1975, foi com o ex-marido João Gilberto. O seguinte, "Miúcha & Tom Jobim", com Tom - o maestro, na verdade, ia fazer uma participação, mas gostou da primeira faixa gravada e quis fazer mais uma, mais outra e mais outra. Acabou chegando ao segundo volume. Houve outros discos, sempre muito caprichosos e pessoais - como "Miúcha", de 1989, que, entre pérolas, reuniu, pioneiramente, quatro composições de Guinga, quase desconhecido, na época. Mas esse é o que ela sente como mais dela. O disco que se devia.
Miúcha não alardeia, mas sempre que viaja para algum lugar, espera o término da temporada de shows, bota a mochila nas costas e vai terra a dentro, ouvir violeiros, repentistas, cantadores de todo canto. É sua causa. Acha que a música brasileira, mesmo que a boa não toque no rádio ou na televisão, está vivendo um bom momento - e tem razão: aponta os pernambucanos do Cascabulho, que recuperam o humor e a supresa do canto de Jackson do Pandeiro, e do Mestre Ambrósio, com seus maracatus e folguedos; os cariocas do água de Moringa e sua prospecção do choro; o baiano Fábio Pais e a pesquisa sonora de Canudos - para citar poucos exemplos -, gente estudiosa que, há alguns anos, estaria estudando e pesquisando no exterior. Nessa década, é incrível, mas é fato, tem-se estudado e pesquisado aqui mesmo. Melhor assim. Miúcha vai lançar "Rosa Amarela" em São Paulo no dia 11 de setembro, no Sesc Ipiranga. É ouvir, enquanto se espera.

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