A história conhecida da colonização do Norte do Paraná é uma epopéia manca, mas que é difundida até hoje como uma grande aventura civilizatória na qual pioneiros desbravaram matas, plantaram café e geraram riquezas em toda a região.
Reiterada especialmente em ocasiões comemorativas de Londrina, a versão apologética vai aos poucos sendo desmontada por trabalhos acadêmicos de peso, que colocam em xeque a suposta ausência de conflitos na ocupação das terras, o heroísmo de alguns personagens e toda a papagaiada ufanista em torno de um éden prometido.
Nesta temporada, dois novos livros chegam aos leitores retomando essas questões: ‘‘Norte do Paraná – Histórias e Fantasmagorias’’, de Nelson Dacio Tomazi; e ‘‘Caçadores de Notícias – História e Crônicas Policiais de Londrina (1948-1970)’’, de Tony Hara. Os dois livros serão lançados hoje, às 20 horas, em noitada de autógrafos no restarante Jasmim (antigo Casarão, Rua Maringá 899).
Ambos contêm potencial para levantar polêmicas, particularmente agora, às vésperas da reinauguração do Museu Histórico (previsto para o dia 2 de dezembro) quando a versão hegemônica dos fatos poderá se manifestar de novo com pompa e vigor. Nelson Tomazi oferece sua tese de doutorado problematizando o discurso laudatório construído pelas elites e rediscutindo a política econômica e social empreendida pelos governantes estaduais e pela Companhia de Terras Norte do Paraná (principal agente colonizador da região).
Já o livro de Tony Hara, fruto de sua tese de mestrado, examina a história de Londrina através da reconstituição de quatro assassinatos ocorridos na cidade entre as décadas 40 e 70. Os dois títulos foram publicados pela editora curitibana Aos Quatro Ventos, que no ano passado lançou o volume ‘‘O Centro e as Margens – Prostituição e Vida Boêmia em Londrina (1930-1960)’’, de Antonio Paulo Benatti.
Tomazi conta que seu objeto de estudo nasceu depois de notar que havia um ‘‘discurso pronto’’ sobre o Norte do Paraná. ‘‘É sempre aquela mesmice de identificar a região com o café, o dinheiro, a colonização pacífica e ordenada, a fertilidade da terra roxa, a nova Canaã, o Novo Eldorado. Quando viajo pelo país e digo que sou de Londrina, é sempre isso que escuto. É a visão que também se reproduz em jornais e revistas. Comecei a desconfiar desse discurso único partindo da premissa de que todo discurso silencia outros discursos. E, no caso analisado, o discurso foi construído por indivíduos vinculados ao poder na região’’ – diz.
Tomazi examina como ele se formou, o que ele oculta e porque está até hoje embutido na cabeça das pessoas. No primeiro capítulo, o professor revela a continuidade desse imaginário rastreando algumas de suas manifestações ao longo da década de 90. Assim, flagra a ladainha nos livros ‘‘O Tempo de Seo Celso’’ (do escritor Domingos Pellegrini) e ‘‘Amo Você, Londrina’’ (de Eduardo Afonso) e em circunstância como o retorno dos sinos à catedral de Londrina (depois de ficarem 20 anos guardados desde a demolição da antiga igreja matriz), no oba-oba em torno da inauguração do shopping Catuaí e na campanha ‘‘Rumos do Norte’’ (desencadeada pelo então vereador e presidente da Câmara Municipal Tadeu Felismino com o objetivo de mobilizar a cidade para uma ação em prol do desenvolvimento da região).
Tomazi estabelece o que chama de ‘‘confronto de memórias’’ para em seguida abordar todo o processo político, econômico e social que permitiu a emergência daquele discurso. O marketing da região como a ‘‘Terra da Promissão’’ foi inventado, segundo o professor, pela Companhia de Terras Norte do Paraná, a empresa de capital inglês responsável pela venda dos 515 mil alqueires de terras situadas entre os Rios Paranapanema, Tibagi e Ivaí.
Tomazi contesta a tese de que a lenta investida dos pioneiros, entre meados do século 19 e final dos anos 60, tenha sido pacata e feita sobre uma terra desocupada e virgem. No livro, ele usa inclusive a expressão (re)ocupação das terras em lugar de ocupação. ‘‘Há indícios arqueológicos de que índios das tribos Xetá e Kaingang já habitavam a região há pelo menos 7 mil anos, antes da chegada dos brancos’’ – diz.
O mito de que a posse da terra aconteceu sem derramamento de sangue, também é derrubado. ‘‘A exclusão e a violência na região foram explícitas’’ – afirma ele. ‘‘A violência recaiu primeiramente sobre indígenas e caboclos e num segundo estágio atingiu posseiros e mais tarde os trabalhadores rurais’’. O autor observa que o Norte do Paraná nunca foi uma região pacífica, ao contrário do que se quer fazer acreditar.
A presença de jagunços e pistoleiros contratados por famílias de fazendeiros (ou pelas companhias de colonização), a ação da corporação militar do governo estadual e a luta dos posseiros para manter a sua terra revelavamm como a tensão e os conflitos eram constantes. Pesquisando documentos, ele topou com um insólito item no Código de Posturas do município de Londrina de 1953.
‘‘Há uma linha ali especificando a proibição de barulho produzido por armas de fogo, o que revela como a violência era corriqueira’’ – diz. Ainda segundo ele, mais de 500 mil pessoas abandonaram o Norte do Paraná entre as décadas de 70 e 80 como consequência da exclusão imposta pela colonização predatória e regida pela lógica do capital.
A figura heróica do pioneiro também sai chamuscada ao longo das páginas do livro. Tomazi focaliza a trajetória de George Craig Smith, apontado como um dos mais importantes desbravadores da região e que chegou a ser condecorado como cidadão honorário de Londrina, do Paraná e posteriormente como membro do Império Britânico.
Para o autor, não há nada na biografia do sujeito que explique tamanha reverência. ‘‘Ele viveu apenas 8 anos em Londrina durante a colonização. Chegou em 1929 e deixou a cidade em 1937, retornando somente em 1975. O que ele fez além de ser um funcionário da Companhia de Terras?’’ – pergunta.
Tony Hara não investiga a história da colonização, mas toca no tema na introdução de sua obra, onde revela o quanto o jornal ‘‘Paraná-Norte’’ (que circulou antes mesmo da fundação do município de Londrina) promoveu as supostas virtudes da região iniciando a mitificação da terra roxa.
O livro, na verdade, discute a imprensa (em particular, o jornalismo policial) e as maneiras como determinados fatos transformados em notícias mexem com o imaginário da população. Ele analisa quatro violentos crimes de morte ocorridos em diferentes épocas na cidade mostrando os variados impactos que exerceram sobre a opinião pública local. O primeiro capítulo narra a história da prisão de um notívago, Biquinha, que provocou uma revolta popular na zona do meretrício no sábado de carnaval de 1974.
O segundo capítulo conta a história da morte do advogado Alcides Tomazetti, assassinado pelo juiz da comarca de Londrina, Ismael Dorneles de Freitas, em julho de 1975. O terceiro capítulo revisita a história de Maria Neuza Pereira, funcionária da prefeitura que disparou três tiros na cabeça de seu amante, Leonel Raimundo, em dezembro de 1963. Finalmente, o último capítulo é dedicado ao caso de Neila Ribeiro, uma menina de 11 anos que foi vítima de estupro seguido de morte.
‘‘A Neila acabou virando milagreira. As pessoas sublimaram a dor criando um movimento que a transformou num anjinho. Até hoje as pessoas visitam seu túmulo’’ – conta o autor. Segundo ele, o episódio é emblemático para demonstrar como as pessoas recebem, reprocessam e reinventam o que lêem nos jornais. O jornalista da época emerge da narrativa com traços ambíguos.
Segundo Tony, ‘‘ele criticava a prostituição, mas era boêmio e frequentador da zona. A zona era, talvez, o único local de lazer de homens. Era lá que se fechavam os negócios e se comemorava a riqueza gerada pelo caf钒. Ainda de acordo com o autor, o repórter policial era – e ainda é – um cúmplice e aliado da polícia, ainda que ocasionalmente a imprensa provoque a queda de delegados.
‘‘Ele depende de bons relacionamentos com os policiais para conseguir as melhores entrevistas, declarações inéditas ou mesmo um furo de reportagem. A editoria de polícia é a menos valorizada na hierarquia do jornal, mas ao mesmo tempo é a mais próxima da dor humana’’ – completa. Os dois livros que serão lançados hoje estarão disponíveis, a partir de amanhã, na livraria da UEL.

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