PONTO DE VISTA Mitologia de cordel A Intrépida Trupe estreou anteontem no FTC com ‘Kronos’, cuja profusão de informações pode confundir o espectador Márcio Scratut‘‘Kronos’’: o cordel de mãos dadas com a mitologia grega Francelino França De Curitiba A ginga carioca deu a tônica na noite de estréia do 9º Festival de Teatro de Curitiba, com o espetáculo ‘‘Kronos’’. Os artistas-múltiplos da Intrépida Trupe apresentaram a versão pictórica e malabarística sobre o nascimento do tempo. O Big Bang foi traduzido em imagens hipnóticas, com os efeitos das bolas de fogo em movimento pendular. Se o black-out fosse completo, impossível de se obter na Ópera de Arame, o efeito com as bolas de fogo seria superior. Mesmo assim, a adaptação do espetáculo ao espaço majestoso do teatro não ficou comprometida. A Intrépida Trupe lutou contra a gravidade para contar a versão mitológica sobre o tempo. Kronos foi narrada no ritmo da literatura de cordel, comandado por dois bufões, numa versão yin e yang da irreverência. São bufões resgatados da idade medieval, se equilibrando na cadência de cordelistas. Em Kronos, o cordel ficou de mãos dadas com a mitologia grega. ‘‘Eu vi o Big Bang, eu vi o mundo começar’’, ecoavam. Os deuses e mitos gregos recriados nos trapézios e cordas encantaram a platéia. A encenação mostrou que no terreno teatral tudo é possível, até colocar no palco maculelê para os deuses gregos jogarem. Também no compasso do maracatu, a Intrépida Trupe desfilou a grandiloquência do novo circo, fenômeno já conhecido nos quatro cantos do mundo. A vantagem do modelo brasileiro dessa vertente circense é a ginga. No entanto, a marca registrada do grupo, a irreverência, ficou diluída no espetáculo, aparecia de forma intermitente. Quem foi ao espetáculo desabonado de informações sobre a peça ficou meio sem rumo. A profusão de informações contidas nas imagens nem sempre retratava com clareza a instigante história mitológica. Por isso, o público precisou fazer malabarismos, em alguns momentos, para entender a proposta de questionamento sobre o tempo. O espectador precisou ‘‘editar’’ o espetáculo. Mas a maior parte do tempo, a Intrépida Trupe preenche todos os espaços, visual, sonora e ludicamente. A opção de se ancorar na mitologia para questionar nossa alucinante forma de viver foi uma ousadia, como execução ficou irregular. O balaio sonoro levado em cena flertava com mangue beat e valsas vienenses. Os efeitos do temporal soaram quase redundantes, em função da chuva fora do teatro. Na cena dos movimentos dos astros, os raios riscavam o céu, enquanto o público aplaudia em cena aberta. Kronos exigiu do público um olhar atento em todas as direções para entender a descartabilidade dos nossos atos. Em tempos de aceleração tecnológica, de ansiedade do consumo, pensar sobre o que fazemos com o nosso tempo-espaço é tarefa para ser feita num momento zen. Coisa cada vez mais difícil de acontecer.