Mito sem chiliques
Por algum tempo Niza de Castro Tank manteve-se afastada da cena, apenas cuidando de seus alunos. Nessa fase, estava dando aulas no Festival de Música de Londrina e foi tanto o assédio da garotada que queria ouvi-la que ela cedeu e o Cine-teatro Ouro Verde veio abaixo.
Dividindo-se entre aulas e apresentações esparsas, a soprano uniu-se no ano passado a Celine Imbert e Cláudia Riccitelli. As platéias de São Paulo e Londrina tiveram o gosto de ver e ouvir as três. Também em 99 a artista foi condecorada com o Prêmio Guarany Hors-Concours.
Com uma carreira iniciada profissionalmente há 45 anos, quando atuou em Rigoletto, de Verdi, no Teatro Municipal de São Paulo, e onde se incluem participações em óperas realizadas em Moscou, Berlim, Jerusalém, entre outras cidades do exterior, Niza reconhece: Sempre tive muita sorte. Em 1954, um ano antes da data em que ela considera o marco zero da estrada, esteve na gravação de O Guarani, de Carlos Gomes, considerado um disco histórico.
Niza lamenta o espaço restrito dado aos novos talentos. Os maestros preferem buscar cantores lá fora, mesmo sabendo que temos boas vozes. A desculpa é que não temos escola, o que é até justificável, disse certa vez em entrevista à Folha2. Nessa mesma ocasião comentou sobre os rompantes das estrelas: É uma caretice muito grande.
Se quisesse ela poderia muito bem se postar de diva. Além da coleção de troféus acumulados através dos anos, há boas histórias como a da apresentação de Lucia Di Lammermoor, na Armênia. Para evitar sustos de última hora, avisaram a cantora que o público armênio era extremamente formal. Jamais aplaudiria performances em cena aberta.
Para surpresa de músicos, técnicos e elenco a platéia dobrou-se a Niza Tank. Fui aplaudida em cena aberta e, com isso, rompeu-se um tabu, orgulha-se. Isso ocorreu em 1969. Dezessete anos depois, a artista subiu ao palco do teatro de Belém (PA), para cantar O Guarani. Foi sua despedida oficial sem dor e sem traumas, mas nada impede momentos como este do Canal da Música, quando mais uma vez emprestará sua voz para os mestres da ópera e aos nosso mestres da música popular. (Z.C.L.)





