Mito feito de palavras
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sábado, 07 de dezembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
As vertiginosas descrições da vida interior, que tanto marcaram a obra de Clarice Lispector (1925-1977), constituem um caso único na literatura brasileira. Tentar transportá-las para as telas foi o desafio a que se propuseram cineastas como Suzana Amaral e José Antônio Garcia. Para homenagear a escritora, na passagem dos 25 anos de sua morte, o Canal Brasil exibe uma série de filmes inspirados em sua escrita labiríntica.
A programação acontece na segunda e terça-feiras reunindo quatro longas-metragens, dois curtas e um Cinejornal Especial. Clarice, cuja parte de suas correspondências completas chegou esta semana às prateleiras, escreveu 26 livros ao longo de uma consagrada carreira. Hoje, é o autor brasileiro mais estudado no mundo, ao lado de Machado de Assis. Quando lançou seu primeiro romance, ''Perto do Coração Selvagem'', tinha apenas 17 anos.
A precocidade e a originalidade da narrativa deixaram os críticos atordoados. Ninguém sabia onde encaixar o romance, que já anunciava a densidade introspectiva da maturidade. Clarice perseguiu o indizível, aquilo que as palavras não podem expressar. Entre os títulos mais famosos de sua obra figuram ''A Paixão Segundo G.H'', ''Água Viva'' e ''Laços de Família''. Para o público infantil, escreveu narrativas como ''O Mistério do Coelho Pensante'', ''A Mulher que Matou os Peixes'' e ''Quase de Verdade''.
De origem ucraniana, ela emigrou para o Brasil com dois meses de vida, em 1920. Morou em Recife até 1935, quando o pai e as irmãs se mudaram para o Rio de Janeiro. Formou-se em direito, mas trabalhou como jornalista. Não se via como uma feminista, mas chegou a manter a coluna ''Só Para Mulheres'', no Diário da Noite. Publicou seu primeiro conto aos 14 anos numa revista chamada ''Vamos Ler''.
Depois da estréia em livro com ''Perto do Coração Selvagem'', em 1944, estabeleceu reputação como um dos grandes nomes das letras nacionais. Na época, o crítico Antonio Cândido saudou o romance como ''uma tentativa impressionante para levar a nossa língua canhestra a domínios pouco explorados, forçando-a adaptar-se a um pensamento cheio de mistério''. O escritor Guimarães Rosa foi outro leitor apaixonado de Clarice.
Certa vez, depois de ouvir o autor de ''Grande Sertão Veredas'' dizer um trecho de um de seus contos, ela indagou: ''Você sabe de cor?''. Rosa respondeu: ''Eu leio você para a vida, não leio você para a literatura''. Clarice morreu um dia antes de completar 52 anos, no dia 9 de dezembro de 1977, de câncer no útero. A homenagem do Canal Brasil destaca, entre outros, o filme ''A Hora da Estrela'' (1986), baseado no romance homônimo com direção de Suzana Amaral e presença dos atores Marcélia Cartaxo, José Dumont e Fernanda Montenegro.
Apresenta também ''Erotique'' (1994), uma produção internacional que reúne quatro curtas de países diferentes. O episódio brasileiro é uma adaptação do conto ''A Língua do P''. Confira a programação completa nesta página.


