Mito digitalizado
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sábado, 03 de agosto de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A natureza pode ter sido ingrata com o cérebro das loiras, segundo a famosa gozação, mas foi generosa com a anatomia de muitas delas. Marilyn Monroe, o mito, que o diga. Pronuncie seu nome numa roda e veja as reações. Só ela poderia encarnar o ''pecado'' que morava ao lado de Tom Ewell na comédia dirigida por Billy Wilder.
Amanhã, a loira preferida dos homens será lembrada outra vez com o aniversário dos 40 anos de sua morte. Nos Estados Unidos, está prevista uma série de homenagens incluindo desfile de sósias, leilão de objetos e visitas ao cemitério de Westwood onde ela está sepultada ao lado de Natalie Wood, Jack Lemmon, Truman Capote, Walter Mathau e outros ilustres.
A celebração passa também pelo Brasil, com o lançamento pela Fox de um pacote de DVDs contendo 12 filmes da estrela, além do documentário ''Marilyn Monroe: o Fim dos Dias''. A fornada vem embalada em duas caixas, cada uma com seis títulos, custando R$ 177,90 (cada box) e R$ 34,90 (cada DVD). Na coleção figuram desde clássicos como ''Quanto Mais Quente Melhor'' até longas em que ela foi apenas uma coadjuvante como ''O Inventor da Mocidade''.
O apanhado vai do início inseguro à explosão cômica de seus melhores trabalhos. John Huston foi o primeiro a perceber o potencial de estrela na atriz. Mas até atuar sob as ordens do diretor em ''O Segredo das Jóias'' (1950), ela fez pontas em cinco filmes. Ganhava tão pouco nesses trabalhos que aceitou posar nua para um calendário por apenas US$ 50.
Não demorou muito, e já era o pôster número 1 da América excitando o imaginário masculino com suas curvas estonteantes. ''Ela era exatamente como as garotas da época que acompanhavam alguém ao jogo de cartas'' declarou o diretor Billy Wilder no livro de memórias ''Billy Wilder e o Resto é Loucura'', publicado no Brasil pela DBA Melhoramentos.
''Era certamente bonita, mas seguramente não aquele tipo atraente do qual não se pode tirar o olho. Ela só se tornou uma beleza provocante na tela, e ali ela era incomparável. Olhando retrospectivamente, devo dizer que jamais encontrei alguém que pudesse ser tão completamente trivial quanto ela. Mas também não conheci ninguém que fosse tão maravilhosa no celulóide''.
Os fãs mais obcecados que adquirirem o pacote de DVDs, poderão rever sua primeira aparição nua na tela tomando banho atrás de uma cortina em ''Torrentes de Paixão'', que Henry Hathaway rodou em 1953. Outros não deixarão de suspirar ao vê-la descendo um poste cantando ''My Heart Belongs to Daddy'' em ''Adorável Pecadora'', de 1960.
Há, claro, Marilyn impregnando a memória popular na cena em que aparece com a calcinha à mostra, de vestido branco levantado pela corrente de ar que escapa dos tubos de ventilação do metrô de Nova York em ''O Pecado Mora ao Lado'' (1955). A cena, ousada para a época, teria sido a responsável pelo fim do casamento com o campeão de beisebol Joe Di Maggio.
Neste filme, ela revelaria grande talento para a comédia, o que se acentuou em ''Quanto Mais Quente Melhor'', considerado uma obra-prima pela crítica mundial. O estereótipo de loira sexy e burra é interpretado em ''Como Agarrar um Milionário'', no qual a atriz contracena com Lauren Bacall e Betty Grable divertindo a platéia como uma ameba míope que não pode usar óculos diante dos homens.
Suas atuações dramáticas também poderão ser checadas na fornada de DVDs, tirando a limpo eventuais desconfianças quanto à sua vocação. É o que mostra, por exemplo, em ''Almas Desesperadas'' (1952) e ''Nunca Fui Santa'' (1956). Mas nem tudo em sua trajetória mereceu elogios. Ela mesma condenou o faroeste ''O Rio das Almas Perdidas'' (1954) como o pior filme de sua carreira, o que não passará batido pelos cinéfilos.
A coleção traz ainda ''Os Desajustados'' (1961), de John Huston, seu último filme e que marcou também a despedida de Clark Gable. O documentário ''O Fim dos Dias'', por sua vez, conta a história da atriz com direção de Patty Ivins e narração do ator James Coburn. Reúne entrevistas, trechos de arquivos inéditos e uma reconstrução inédita do filme ''Something's Got to Give'', do qual fora demitida.
Na época, Marilyn chegava sempre atrasada ao set, indisciplina que havia lhe custado críticas anteriores de outros diretores. Já era dependente de álcool e drogas. Ainda durante as filmagens de ''Os Desajustados'', o roteirista Arthur Miller (então seu marido) havia alertado Huston de que a mulher vivia com medo de que, dormindo pouco, não estaria em forma no dia seguinte.
A idéia foi virando uma obsessão, a ponto de Marilyn tomar comprimidos não apenas para dormir, mas também para acordar. Chegou a sofrer um colapso nervoso, sendo internada por duas semans num hospital de Los Angeles. Quando começou as filmagens de ''Something's Got to Give'', já estava separada de Miller e mantendo um caso com o então procurador geral dos EUA Robert Kennedy.
Consta que, pouco depois, teria virado um trapo deixando de se alimentar, trocar de roupa e até de tomar banho. Mais de 40 biografias já tentaram devassar o mito, que resiste como um dos símbolos máximos da sensualidade no cinema. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu na noite do dia 4 para o dia 5 de agosto de 1962, a não ser o que os médicos legistas anotaram no atestado de óbito de Marilyn. A causa da morte foi a mistura de 50 comprimidos de um sonífero com álcool.
Serviço:
Coleção de DVDs Marilyn Monroe. Lançamento: Fox. Box 1: Quanto Mais Quente Melhor, Os Homens Preferem as Loiras, Nunca fui Santa, Torrentes de Paixão, O Rio das Almas Perdidas e Almas Desesperadas. Box 2: O Pecado Mora ao Lado, Os Desajustados, Adorável Pecadora, Como Agarrar um Milionário, O Inventor da Mocidade, O Mundo da Fantasia.


