O historiador inglês Paul Johnson especializou-se em narrar histórias dramáticas com uma paixão moral. Sua opção sempre foi a de oferecer aos leitores textos que celebram a liberdade e denunciam a tirania. Foi o que o convenceu a escrever a biografia ‘‘Napoleão’’ (212 páginas), que a editora ‘‘Objetiva’’ lança nesta semana. E sua tese é polêmica: para ele, o imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821) não foi um ideólogo, mas um oportunista que se aproveitou da Revolução Francesa para chegar ao poder supremo. ‘‘A forma violenta e sangrenta com que os franceses realizaram sua revolução, que levou ao absolutismo, beneficiaram Napoleão, pois, uma vez no poder, ele buscou ainda mais poder’’, comentou Johnson em entrevista à reportagem, por telefone.   ‘‘O uso da força tornou-se sua única opção tática e, sob seu comando, aconteceram guerras que provocaram mais de 4 milhões de mortos (alguns acreditam em até 6 milhões) o que, por ser menor a população naqueles tempos, o coloca perfeitamente na lista dos grandes carrascos como Hitler e Stalin, que provocaram verdadeiras mortandades. Por sua influência, o século 20 ficará na história como a Idade da Infâmia. Mesmo assim, ele ainda é glorificado na França.’’
  O fascínio é grande pois, com a única exceção de Jesus Cristo, Bonaparte é o indivíduo que mereceu o maior número de livros publicados no mundo, assegura o pesquisador. ‘‘Embora tivesse morrido derrotado e débil, Bonaparte tornou-se um mito imortal, soldado vitorioso e governante modelar.’’ Ele garante, porém, que sua visão depreciativa não é mais um exemplo da tradicional visão inglesa antinapoleônica. Johnson baseia-se em fatos: Bonaparte provocou na Europa as guerras mais destruidoras que o continente jamais conhecera, transformando determinadas batalhas em um confronto entre nações inteiras. Com o aumento das baixas militares, as populações civis também começaram a sofrer – primeiro a Itália, depois a Europa Central até atingir Espanha e Rússia.
  A própria França sofreu baixas preciosas, apesar de ter sido palco de operações somente na fase final das guerras, no início do século 19. ‘‘O crescimento demográfico francês diminuiu enquanto outras populações aumentavam rapidamente’’, observa o historiador. ‘‘Com isso, o país inevitavelmente perdeu sua posição de líder europeu e passou a amargurar uma faixa secundária. Esse foi o verdadeiro legado de Bonaparte à sua pátria.’’
  Johnson observa também que foi a ferocidade de Napoleão que incentivou o acirramento do preconceito entre algumas nações européias. ‘‘Os países de língua alemã, em especial, foram cenários constantes de batalhas. Com isso, nasceu um sentimento de repúdio a Bonaparte que se transformou no espírito nacionalista alemão, o qual, por sua vez, tornou-se agressivo e ameaçador’’, afirma.
  Diversos historiadores e políticos já compararam Napoleão Bonaparte a Hitler (Churchill, inclusive), tanto nos métodos como na carnificina provocada por seus atos. A pior influência herdada pelo chanceler alemão foi, segundo Johnson, a noção de que um homem pode se tornar herói de uma nação, mesmo que mantenha os países vizinhos sob ataques agressivos. ‘‘Ao glorificar Bonaparte a partir do século 19, os franceses legitimaram o totalitarismo surgido no século seguinte, especialmente na Alemanha e Rússia.’’
  Outra desconstrução promovida por Johnson é a de apontar os raros talentos administrativos de Bonaparte, apesar de sua fama de modernizador por lançar, entre outros feitos, o Código Civil. Segundo o historiador, ele não tinha senso de moderação, freqüentemente não se preocupava com a vida de seus soldados, aceitava a polícia apenas como um instrumento de guerra, dissipou o orgulho nascido com a Revolução e traiu, inclusive, suas preferências juvenis, como Beethoven. ‘‘Creio que sua principal qualidade era ter um bom conhecimento da matemática, o que o favorecia nas táticas de guerra’’, comenta.
  Em sua biografia, o historiador inglês não se preocupa em tratar apenas de assuntos políticos e militares, fornecendo também uma série de curiosidades. Como a origem de seu nome: segundo filho de um total de oito, ele foi registrado como Nabulion e não Napoleão. O nome não tinha maior significado, apenas era uma homenagem de seu pai ao bisavô. Bonaparte, porém, não o utilizou – uma análise dos milhares de autógrafos napoleônicos existentes mostra que ele sempre assinava Buonaparte e, mais tarde, Bonaparte. Também raramente escrevia Napoleão por extenso, rabiscando simplesmente ‘‘Nap’’ ou ‘‘Np’’.
  Johnson não resiste também em revelar a descoberta feita pelos seis cirurgiões que examinaram o corpo de Bonaparte após sua morte: o imperador apresentava o que os médicos chamam de ‘‘feminização’’. O corpo estava coberto por uma densa camada de gordura, exibia uma ausência quase total de pêlos e apresentava seios bem desenvolvidos. Os ombros eram estreitos, os quadris largos e os genitais pequenos. ‘‘A partir dessa descoberta, a expressão ‘busto de Napoleão’ adquire um significado completamente diferente’’, ironiza.

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