Mito da liberdade do cinema
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de novembro de 1998
Lélio Sotto Maior Jr. 
Quando a escritora (e filósofa) Simone de Beauvoir, que havia escrito um ensaio polêmico sobre a condição da mulher (O Segundo Sexo), resolveu fazer um estudo da então em moda estrela de cinema Brigitte Bardot, é porque via nela algo mais do que um estrelismo inócuo. Para Simone, parceira de Sartre no movimento Existencialismo, B.B. representava o novo feminino no que ele tinha de mais revolucionário: a liberdade sexual da mulher moderna, uma oposição ao eterno feminino.
Com a colaboração preciosa de seu hábil Pigmalião, o cineasta Roger Vadim, que sabia lhe despir com arte e talento, Brigitte despontava como o maior mito do cinema francês. Seu tema, a desinibição, sua temática, o erotismo assumido, sua égide, a nova mulher. E no mundo inteiro, as mocinhas brigitavam, imitando o modelo gaulês.
A contribuição de B.B. e Vadim era tão incisiva que muitos os consideraram os verdadeiros precursores da então nascente Nouvelle Vague francesa, em filmes tão instigantes e adoráveis quanto E Deus Criou a Mulher. Tanto que a musa acabou realizando um filme com Jean-Luc Godard, o líder da Nouvelle-Vague, o inventivo O Desprezo, para muitos um dos melhores filmes do diretor.
E B.B. nunca esteve tão sexy, tão provocadora, tão arrogante, tão ambígua quanto neste Le Mépris. Já com outro cineasta da Nouvelle-Vague, o arrojado Louis Malle, Bardot fez dois ótimos filmes, cheios de encanto e irreverência: Vida Privada e Viva Maria. E hoje em dia, quando seus filmes são reprisados, B.B. continua encantando pelo seu charme inimitável, pelo seu sex-appeal generoso, pela sua insólita e única sensualidade.


