MITO BEM LEMBRADO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de agosto de 2001
Nelson Sato<BR>De Londrina 
Nelson Gonçalves é o grande homenageado da vez. Um CD e um DVD chegam às lojas esta semana honrando o mito como parte da série de lançamentos comemorativos dos 100 anos da gravadora RCA Victor, hoje incorporada à BMG. A novidade é que o tributo foge do trivial oferecendo surpresas aos fãs do cantor, morto em abril de 1998.
Se o CD traz duas músicas jamais gravadas em disco, o DVD é inteiramente inédito em sua mistura de filme biográfico e documentário. Embora um seja a trilha sonora do outro, ambos serão comercializados separadamente. Tamanha reverência ao boêmio seria inevitável em vista da extensa folha corrida de serviços prestados à companhia, cuja ficha inclui 127 LPs, 183 discos de 78 rotações por minuto, 26 CDs e mais de 200 compactos.
Na RCA, sua longeva trajetória fonográfica só tem paralelo no exterior com Elvis Presley. O pioneirismo do cantor começou em 1941, quando ele gravou o primeiro 78 rpm registrando entre as faixas o samba-canção Sinto-me Bem, de Ataulfo Alves. A música está presente na trilha-homenagem um desfile de sucessos garimpados de várias fases da carreira como Renúncia (1942), Maria Betânia (1945), Camisola do Dia (1953), A Volta do Boêmio (1957), Último Desejo (1966), Nova Ilusão (1986) e Auto-Retrato (1989).
Em Caminhemos (1986), de Herivelto Martins, Nelson Gonçalves divide o vocal com Maria Bethânia. Já em Nada Por Mim (1997), de Herbert Vianna e Paula Toller, conta com participação especial de Frejat. Negro Telefone (1953), por sua vez, traz um registro raro do Trio de Ouro. As novidades ficam por conta das inéditas Nova Ilusão e Erva Daninha, sobras das sessões de gravação dos respectivos discos Ele & Elas Vol 2 (1986) e Nós (1987).
Pela modesta compilação, evidencia-se a famosa voz de barítono que fez história na música popular brasileira interpretando dores de amores em boleros, sambas-canções, foxes e tangos. Incólume com seu vozeirão à antiga, Nelson Gonçalves atravessou décadas sem nunca abrir mão do estilo impostado de cantar, que o filiou à escola dó-de-peito de cantores como Francisco Alves e Orlando Silva.
Não apareceu mais nenhum cantor com voz. Eu uso um terço da potência da minha; não precisa mais repetia em entrevistas. No DVD, a revisão não se limita à obra tematizando também a vida do cantor. O projeto é uma parceria da empresa Diler & Associados com a BMG. Traz um misto de documentário e drama mesclando depoimentos, imagens de Nelson e cenas de ficção (fiéis aos fatos da vida real) nas quais o cantor é interpretado pelo ator Alexandre Borges.
O filme foi dirigido por Eliseu Ewald e traz à tona a descida aos infernos do artista, do final dos anos 50 à metade dos 60, quando tornou-se viciado em cocaína sendo inclusive preso por tráfico em 1965. Revela também sua luta para se estabelecer nas rádios e no mercado fonográfico. O filme teve aprovação da família: Margareth Gonçalves, filha do cantor, participa da produção como produtora associada; e edro Renato, neto de Nelson, interpreta o próprio avô com a idade de sete anos.
O DVD inclui depoimentos inéditos gravados especialmente para o projeto de pessoas que conviveram pessoal e profissionalmente com Nelson Gonçalves, entre eles o cantor Lobão, o compositor Adelino Moreira (parceiro desde 1950), o produtor musical José Milton, o jornalista Sérgio Cabral e diversos profissionais ligados à indústria fonográfica. As entrevistas foram todas gravadas há mais de dois anos, pois o projeto do filme já estava sendo desenvolvido desde 1999.
A intenção era que o trabalho fosse exibido como uma minissérie de TV, narrada pelo próprio Nelson que chegou a assinar contrato com Eliseu Ewald, apenas duas semanas antes de morrer. Para compor a parte factual, o diretor recorreu a imagens de arquivo de várias épocas (das chanchadas da produtor Atlântida, nos anos 50, até flagrantes de Nelson nos anos 90). Ele aparece tanto em estúdio nos anos 60 como na gravação do clipe da música Nada por Mim, registrada em 1997, ano que ele lançaria seu último álbum, Ainda é Cedo, com recriações do repertório do pop nacional.


